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Provocações

A MORTE

DO PASSEIO

Pedro Piovan

12 de setembro de 2020

Como chegamos em um espaço-lugar que só nos permite produzir
 

E não eram as máquinas que iam nos deixar passear? Essa é a pergunta que me faço quando vejo o nome dessa revista. No século XIX e XX idealizamos o avanço tecnológico como uma forma de deixar o ser humano mais livre para descansar e ser criativo, deixando com que as máquinas gerassem riqueza para nós. 

Mas não foi isso o que aconteceu; talvez o contrário: quanto maior foi o avanço tecnológico, mais os tornamos refém da ideia de progresso e começamos a entrar em uma engrenagem de autoconsumo, replicando as engenhocas dentro de nós mesmo e esperando o mesmo resultado que as peças frias de máquinas produziam.

 

Minha ideia com este artigo é reconstruir qual foi a nossa formatação romântica sobre o avanço tecnológico e o conceito de progresso, até chegarmos onde estamos hoje: enquanto no século XX criamos um relacionamento homem-máquina, agora temos uma metamorfose de atores que se confundem em termos objetivos e existenciais, vivendo um relacionamento "homemmáquina"-"homemmáquina". E claro: como este novo conceito tardio de trabalho (que busca a ideia de que todos nós somos empreendedores) nos remete a morte do passeio e o império da produtividade exacerbada.

CONTEXTO

Vou me permitir voltar aos iluministas, pois é nessa época que construímos os conceitos fundamentadores que sustentam a morte do passeio que temos hoje. No século XVIII foi quando fundamentamos a ideia de que o ser humano progride sempre; nós sempre estamos em constante evolução como se o progresso fosse um movimento inercial, e não uma pressão que constantemente deveríamos fazer. 

Além do ode ao progresso que começamos a consolidar com os iluministas, também criamos a ideia de que a liberdade e fraternidade seriam direitos fundamentais do ser humano e que todos seriam beneficiados dele, e quem traria isso seria a iluminação da razão e do pensamento. 

Os iluministas sustentavam que, com esses ideais, nós teríamos finalmente tempo; teríamos riqueza suficiente para todos os seres humanos terem tempo para si mesmo, para criar sua arte, para se dedicar a família, tendo cada vez mais máquinas produzindo para si e gerando a riqueza necessária para seu sustento.

É importante dimensionar quem são os sustentadores desse ideal que nasce no séc. XVIII floresce no século XIX e se edifica no XX: Adam Smith, David Hume, toda a "trupe" dos founding fathers sendo influenciada diretamente por estes ideais, John Locke e mais alguns outros. O detalhe essencial que pouco se fala é: a gigantesca maioria dos pensadores iluministas e muitos de seus precursores defendiam intelectualmente (e alguns até tentavam justificar cientificamente) que os seus ideais poderiam existir em conjunto e a partir da cultura escravocrata, sendo alguns deles acionistas de empresas escravistas e proprietários de escravos, como John Locke e Thomas Jefferson, respectivamente.

Portanto os ideais que solidificam a Revolução Industrial, a construção da democracia norte-americana e sua independência como país não são apenas pautados na intelectualidade, na razão como forma de garantir sua liberdade e no progresso, mas fundamentalmente que esses ideais só poderiam ser consolidados se existisse ainda a base escravista e supremacista racial para se para sustentar. E compreender isso é essencial para compreender a morte do passeio.

 

Entramos no século XIX com a ideia de progresso como única forma da espécie humana evoluir com fortes expoentes: a nação americana, como representação objetiva dessa ideia, Inglaterra, Portugal, Espanha, Bélgica e Holanda patrocinando esse ideal em invasões de outras nações e forçando que esse ideal reinasse em suas colônias. 

Enquanto isso, a primeira e segunda Revolução Industrial representou objetivamente, como fio condutor, o avanço do progresso: a construção de máquinas, cada vez mais aperfeiçoadas e sistematizadas, trazendo o conceito de escala produtiva a tona e demonstrando a espécie humana de que teriam tarefas que nós não precisaríamos mais desempenhar; as nossas criaturas fariam por si só e nos entregariam o produto praticamente pronto.

Portanto as duas revoluções industriais representaram que o progresso poderia dar uma resposta a necessidade do ser humano se emancipar; não todos, claro, apenas os homens brancos. Nessa época tiveram muitas lutas por conquistas de espaço, independência, igualdade e direitos: com muita luta foram conquistados direitos trabalhistas - se não fossem os movimentos operários, a ideia de 8/8/8 (8 horas para trabalhar, 8 para dormir e 8 para descansar) jamais existiria em nosso imaginário - e movimentos de independência de muitas nações e povos. 

Entramos no século XX com as fábricas em grande expansão, trazendo pessoas do campo para se tornarem parte dessa grande engenharia que se mostrava cada vez mais promissora de "progresso" e "evolução", demonstrando que estávamos de fato progredindo. Para azeitar ainda mais essa estrutura e garantisse que ela crescesse, sem freio, criamos a propaganda: uma forma de garantir que subjetivamente todos "comprariam a ideia". 

Mais uma vez, foi muito bem sucedida: o nível de produção industrial ganhou outras proporções, agora conseguindo padronizar produtos e seu modelo de produção, garantindo que conseguiríamos produzir cada vez mais com cada vez menos interferência humana.

Não podemos deixar de citar aqui: a expansão dos modelos de produção nessa época, e ainda hoje, foram pautados em exploração, trabalho escravo e dominação de terras.

Chegamos aos anos 2000, com a produção em massa e pasteurizada tomando conta das estruturas de poder; aqui a aceleração toma conta dos ambientes produtivos e cada vez mais se busca uma produtividade tardia; já que as máquinas começam a chegar próximo de sua máxima performance, agora é hora das forças produtivas humanas demonstrarem sua produtividade, ou seja: vamos diminuir o custo e expandir os lucros, não só das máquinas, mas também da força humana.

Vivemos em um século que a precarização do trabalho toma conta das forças produtivas, da qual se vende a ideia de que todos devemos ser empreendedores e únicos responsáveis pela nossa força de trabalho, sem a garantia de direitos trabalhistas que assegurem um mínimo de segurança para seus "funcionários". Chegamos a uma era que os exemplos de movimentação financeira são empresas intermediadoras de oferta e demanda, que não se responsabilizam pelo o que acontece em sua cadeia logística. 

E o resultado disso? Precarização. Ao invés da tecnologia cumprir com o papel dela, prometido pelos iluministas, que era deixar o ser humano com mais tempo para se dedicar a si mesmo e suas artes, acaba tornando-o refém e com apenas uma alternativa para sua subsistência: trabalhar mais.

Se o sonho do iluminismo era nos ver bem, com tempo para sermos artísticos e livres do trabalho, com nossas máquinas produzindo as riquezas necessárias para nossa subsistência, então estaríamos em seu pesadelo: os humanos, presos a suas rotinas de trabalho, tendo que trabalhar cada vez mais para conseguir cada vez menos. 

A ideia subjetiva de progresso venceu, mas trazendo consigo a condição objetiva de precarização e, em muitos lugares, escravidão. Não vamos esquecer de que o mundo não abdicou da escravidão ainda: ainda existem 45,8 milhões de escravos, em um dado da Walk Free Foundation.

Hoje todos estão cansados, ansiando pelas férias do trabalho, vivendo em um mundo do qual as doenças do século se tornaram a ansiedade e a depressão. Perdemos a oportunidade de viver o entre-tempo, de viver o descanso, o ócio ou o simples fato de não fazer.

Mais uma vez, com a vitória do progresso vence também as ideias de que não podemos parar de produzir nunca. E é o simples fato de parar de produzir que garante a nossa saúde mental e a possibilidade de pensarmos em algo diferente.

Ou seja: fomos engolidos pela própria engenhoca que criamos; o que antes éramos nós que orientávamos as máquinas, agora nós somos orientados a ser máquinas que tem, em alguns casos, um lapso de humanidade. Viramos o "homemmáquina" se relacionando com outros "homemmáquina".

E qual é a novidade: nós não aguentamos. Por isso vou parafrasear Byung-Chul Han: vivemos na sociedade do cansaço.

IMPACTO

Onde chegamos? Chegamos a uma ideia de progresso que nos pede a metrificação do tempo e vê nele uma oportunidade de explorar para maximizar o nosso resultado. É assim que estamos nos relacionando com o tempo: "tenho uma hora aqui até o próximo call então dá para ver um episódio da série, e sobram mais 14 minutos para eu fazer uma meditação de 5 minutos e sobram mais 9 minutos, dos quais vou colocar as roupas para lavar e sobram mais 3 minutos que eu vou me preparar para a videochamada". 

Isso é insanidade? Não. Isso é a vitória da produtividade frente a ser sensível ao ser humano e pensar nele como um animal que sente, deseja, planeja.. A produtividade escorre das paredes das fábricas e escritórios e penetra a pele do ser humano, nos transformando na própria ferramenta de trabalho e, a dentro de nós, criando a lógica produtiva como um modelo de olhar a vida. 

Quando temos este olhar, é claro que não teremos tempo para o não-produtivo: o passeio, como uma arte de não ter um objetivo definido e mensurável, deve ser excluído pois ele não passa nos parâmetros da visão produtivista de nosso tempo e de nosso esforço. 

Tudo aquilo que não é produtivo e não maximiza o resultado, é excluído. Claro, é a lógica da produtividade: padronizar os modelos, eliminar o desperdício, automatizar a operação e escalar.

E vou me permitir pegar aqui o desperdício.

HOJE

O desperdício é fundamental para nos formar como um ser civilizado. É quando entramos em contato com o excesso, com aquilo que não é necessário, com o que é fluido, que começamos a formar nossa identidade.

O passeio, neste sentido, é uma arte de não-compromisso com o resultado que nos forma como um ser civilizado, capaz de olhar o mundo a nossa volta, interpreta-lo a nossa maneira e com o nosso repertório e formar um ponto de vista.

E claro, em tempos de pandemia e esforço para o isolamento social, isso fica ainda mais grave: somado a ideia de que não podemos não ser produtivos, agora temos que nos manter reclusos com aqueles que moram conosco, sendo a única possibilidade de expandir nosso repertório através da mesma tela que alguns de nós ficamos 8, 10 ou 12 horas por dia.

Portanto, o "desperdício" do tempo é fundamental para nos formar como seres possíveis de ser civilizado. É só observando outras formas de vida, em nossos passeios, que ganhamos nossos referenciais de possibilidades de existência, lugares que podemos habitar, formas de se relacionar que podemos ter com os outros.

Repito: não há melhor forma de educação do que habitar um espaço, viver um ambiente coletivo e passear sobre diferentes pontos de vista. É assim que descobrimos o que é realmente o limite, respeito, carinho, cuidar do outro, perigo e planejamento.

Um exemplo: se o ser humano tivesse ficado nas cavernas, ele não teria descoberto a arte da caça, a organização de tribos, como se comunicar com diferentes e como usar a pele da caça para se aquecer.

O passeio é fundamental para nos formar e nos sustentar enquanto civilização. O perigo eminente da morte do passeio é perdermos, enquanto espécie, a capacidade de lidar com o diferente, de se relacionar com o outro e expandir nosso repertório. Quanto mais enfurnados ficamos em nossos condomínios e seus muros altos, mais nos acostumamos com o pasteurizado e menor fica a nossa capacidade de co-criar soluções coletivas.

E DEPOIS?

 

 

O cenário não esta favorável: em tempos nos quais a produtividade ganhou a perspectiva de nosso olhar e o tempo virou nosso inimigo, pois a todo momento falamos que estamos contra ele, tudo o que é incontrolável e passível de serendipidade se perde e ficamos cada vez mais pobres culturalmente e existencialmente. 

As alternativas para voltarmos a passear de forma descompromissada com o objetivo final e em amizade com o tempo ficam cada vez mais escasso, já que os nossos modelos produtivos mais nos aprisionaram neles mesmo do que entregaram a liberdade prometida.

Ao mesmo tempo, passear por novas ideias, formatos de pensamento diferentes ou passear pelas brincadeiras cotidianas com nossos familiares e amigos funciona como uma forma de síncope; por um momento a rigidez do progresso e da produtividade se quebra e se dilata o tempo em um outro espaço-lugar como uma alternativa de futuro que podemos viver. O descompromisso, nesse sentido, abre uma possibilidade de futuro diferente do que o já programado pelo discurso produtivo. 

Ressoo aqui uma fala da psicanalista Maria Homem, em uma live realizada no mês de setembro de 2020 junto com Maria Rita Kehl e Bruno Torturra: "a cultura do progresso prometeu e não entregou: a liberdade, igualdade e fraternidade". E eu adiciono aqui: o que entregou, na verdade, foi uma possibilidade de existência mórbida, mais próxima de uma existência-zumbi do qual todos nós corremos contra o tempo e em direção ao dinheiro, enquanto os nossos incentivos para formar cidadãos e pessoas íntegras a sua existência morre.

Reforço aqui que minha provocação não tem o intuito de destruir o que nos trouxe até aqui; a ideia de progresso e evolução da espécie humana, quando bem alocada, nos trouxe inúmeros benefícios para que inclusive nos fizesse vivos. A minha provocação é tanto no sentido de trazer uma leitura histórica sob outro ponto de vista e também sobre o que vamos fazer daqui para frente, como vamos lidar com o material que temos hoje para construir um futuro que promete um olhar recheado de vida, e não de morte.

 

Portanto não tenho o intuito de excluir a produtividade e o progresso, mas coloca-los onde os cabe (e claramente não é no topo do império, como temos esses dois conceitos hoje). 

Mas e agora, como resistir a cultura da produtividade e progresso a qualquer custo? Eu me arrisco a dar uma possibilidade por aqui, depois que essa pandemia passar: o que acha de ir dar um passeio?

 

Temos algumas dicas para te dar no próximo Pico.

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