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Provocações

VAI UM DONUT AÍ?

Pedro Piovan

14 de novembro de 2020

Como a simplificação é uma alternativa ao crescimento a qualquer custo.

"Measure what matters"; "Create tech products that people love". "Art Matters".

Todos esses títulos são livros que se tornaram leitura obrigatória do cenário empresarial e corporativo nos últimos anos. Mas não é só neste cenário que estamos refletindo sobre "o que realmente importa". Na verdade, o cenário corporativo chegou tarde nessa conversa. As pessoas que trabalham com representatividade social, economia, política, igualdade e modelos reparatórios já falam sobre isso há MUITO tempo.

E eu consigo entender porque nós, do cenário empresarial, chegamos tarde nessa conversa: sempre estivemos em um modelo que o crescimento deveria ser atingido a qualquer custo; portanto a única coisa que "importava" era o lucro. Se tivesse lucro, estava bom.

Porém já ficou muito claro que apenas lucro não entrega o que realmente queremos. E sabe porque ficou claro? Pelo simples fato de que muitas empresas que só dão lucro não estão conseguindo entregar "o que realmente importa" para o mundo. Quer um exemplo?

Lendo a revista Piauí, edição 168, tem uma excelente reportagem de Consuelo Rodriguez sobre petroleiras fazendo um movimento de retirar dos seus modelos de negócio insumos que geram poluição e inserirem modelos de energia limpa. 

Essa é uma prova cabal de como PRECISAMOS fazer este movimento; como os modelos de negócio tem uma responsabilidade gigantesca além de gerar lucro. Eu vejo dois motivos principais: 

  1. Os nossos modelos de negócios foram pensados excluindo o impacto na Terra e nos seres que habitam nela (incluindo nossa espécie, humana). Ao excluir esses dois fatores da equação, naturalmente não mensuramos o impacto neles e por consequência impactamos MUITO negativamente este ecossistema;

  2. Existe uma pressão geracional (Y e Z, principalmente) que demanda este movimento. Na minha visão, nós só temos a escolha se vamos facilitar ou complicar esta mudança de paradigma, pois ela vai acontecer de uma forma ou de outra, por essas gerações.

 

Então melhor começar nossa lição de casa, não é mesmo?

MAS DO QUE ESTAMOS FALANDO?

 

De maneira prática, estamos falando que precisamos mudar os princípios que regem os modelos de negócio e os modelos econômicos; enquanto antes os nossos modelos de negócio e suas métricas (PIB e EBITDA, por exemplo) nos pressionavam a crescer a qualquer custo, agora precisamos de outros princípios que nos levem a gerar uma economia integrada (onde todo mundo ganha), distribuição e regeneração de nosso ecossistema e padrões sociais.

Falei complicado, mas aqui esta a cereja do bolo: os nossos princípios econômicos precisam ser voltados a garantir que todos os seres na Terra tenham espaço físico para habitar, água e alimento e principalmente: que o nosso impacto seja positivo, e não depreciativo.

Para que isso seja feito, não existe um playbook: vamos precisar construir um que faça sentido. E para que isso seja feito, vamos precisar refazer algumas premissas básicas que acreditamos cegamente, e o meu objetivo aqui vai ser desconstruir algumas delas:

"CRESCER A QUALQUER CUSTO"

Pessoal, essa é fácil: os nossos filhos e filhas já conseguiram entender que essa afirmação não faz nenhum sentido. Mas se nós, adultos, não entendemos isso, basta um exercício simples - os "5 porquês".

 

Imagine o diálogo: 

 

- "Nós precisamos crescer a qualquer custo!" 

 

- "Por quê?" 

 

- "Precisamos entregar lucro para nossas organizações!".

 

- "Por quê?" 

 

- "Para que a empresa se sustente e gere lucro para os acionistas."

 

- "Por quê?" 

 

- "Para gerar mais empregos e os acionistas ficarem satisfeitos."

 

- "Por quê?" 

 

- "Assim todos teremos dinheiro para comer e pagar moradia e os nossos acionistas ficarem mais ricos do que já são".

 

- "Por quê?" 

 

- "Assim todos conseguem viver e os nossos acionistas ter mais dinheiro do que a média do mundo."

 

Muito bem, chegamos em um ponto importante que expõe dois problemas do "crescimento a qualquer custo": independente se o PIB cresceu ou não, nunca conseguimos, na história deste modelo econômico, sanar o desemprego; na verdade, no ponto mais alto do neoliberalismo (últimos 20 anos), o desemprego só cresceu.

 

O segundo ponto é a causa do primeiro: o nosso modelo econômico tem como essência gerar desigualdade - enquanto os acionistas ficam mais ricos do que já são a média fica mais pobre, já que mais pessoas serão empregadas e o dinheiro é finito. 

Achamos a raiz: o nosso modelo econômico de gerar crescimento a qualquer custo só pode ser viável se existe acumulação de riqueza e má distribuição.

 

Como seria um modelo econômico diferente deste? Talvez um que seja enviesado por uma premissa diferente: prosperidade em equilíbrio. 

Como nós podemos declarar um sistema econômico que gere prosperidade a todos os seres que fazem parte dele?

"NÓS SOMOS SERES RACIONAIS QUE QUEREMOS SEMPRE SER MAIS RICOS"

Perdemos o fio da meada. O nosso modelo econômico, que foi criado a partir do mercantilismo (séc. XV), só foi viável a partir de uma história de exploração, escravidão e invasão de terras (se você quer saber mais sobre isso, recomendo este artigo da primeira edição do Passeio). 

Portanto, não somos nós, espécie humana, que somos racionais e queremos acumular riqueza, e sim o modelo econômico que criamos.

Então quais são os valores que orientam a nossa espécie? Para responder essa pergunta, precisaremos voltar um pouco no tempo.

Nós derivamos dos primatas, uma espécie tribalista que se junta em poucos e luta para ter espaço e sanar sua fome. Muito bem, podemos dizer que os primatas representam este ser que sempre esta competindo para viver. Mas olha só, o nosso último ancestral que nos assemelha aos primatas, mais precisamente aos macacos, viveu 25 milhões de anos atrás.

Ao derivar dos macacos, passamos por um processo evolutivo durante milhões de anos na família dos Símios e o nosso último ancestral que nos assemelha de um chimpanzé viveu de 6-8 milhões de anos atrás. 

É só a partir deste momento que começamos a evolução da espécie homo, como nos reconhecemos hoje. Um dos principais ativos que fez com que chegássemos ao homo sapiens sapiens foram dois, na verdade: (1) a possibilidade de se adaptar a cenários diferentes e (2) o trabalho coletivo como forma de resistir a extinção da nossa espécie.

Falando um português "de rua": o que nos diferencia dos chimpanzés (essa espécie que compete para viver) é o fato de que somos seres sociais, coletivistas e adaptáveis. Olhando para isso, fica difícil acreditar nessa narrativa de que somos seres racionais que sempre queremos ter mais lucro.

Para mim, esse raciocínio só faz sentido do ponto de vista de um mercantilista do séc. XV que queria justificar a invasão de outras nações para explorar suas terras, sem correr o risco de ser preso. E, afinal, foi isso que aconteceu. 

"A TERRA DEVE SER EXPLORADA"

 

 

Remontando essa história, precisamos fazer uma anedota teórica: estamos saindo de um período do Holoceno, onde a Terra permaneceu por anos em constante equilíbrio sem grandes revoluções naturais que aniquilaram espécies (era do gelo, por exemplo) para um período que pode ser chamado de Antropoceno, que basicamente se explica da seguinte forma: o ser humano impacta o Sistema Terra de uma forma tão negativa que ele sofre as consequências naturais disso.

Quer um exemplo: nós, seres humanos, geramos tanto Co2 com queima de carbono que estamos aumentando a temperatura da Terra, que esta gerando consequências gravíssimas em nosso dia a dia.

Portanto a premissa de que a Terra deve nos servir é totalmente torta, errada, inconsequente e parte de uma desintegração tremenda de nós com a Terra. E essa desintegração não é "natural" do ser humano, ela foi criada. E vale a pena remontar este raciocínio.

Quando descobrimos que as nossas plantações poderiam gerar matéria-prima que, ao manofaturar, teriam valor agregado para comercializar, percebemos que poderíamos nos beneficiar da Terra. Isso tomou uma proporção maior, depois de alguns séculos: criamos modelos fabris de escala que poderiam plantar mais, colher mais, manofaturar mais, gerando mais vendas e mais danos a Terra. Não paramos por aí, fomos além: invadimos terras, destruímos terras (veja Brumadinho e Mariana, por exemplo) matamos pessoas e criamos doenças. 

Acho que não é bem assim que vamos conseguir sobreviver os próximos 50 anos como espécie. Precisamos remodelar a forma que nos relacionamos com a Terra, chegando a um equilíbrio do qual podemos nos beneficiar do que ela nos propõe ao mesmo tempo que revertemos nosso impacto e sermos uma espécie agregadora ao Sistema Terra, e não destruidora.

Afinal, só estamos adiantando a extinção de nossa espécie se continuarmos nessa toada.

MAS E AGORA?

 

"Bacana Pedro, você fez uma análise (um tanto quanto pessimista), mas como então podemos começar essa remodelagem?"

Diferente do que é normalmente falado, vejo que essa remodelagem deve partir de uma visão sistêmica, e não individualista. Existem várias formas propostas para começar este movimento: desde o modelo Green Deal, Economia Circular entre outros movimentos interessantíssimos para se aprofundar.

Recentemente me aprofundei na teoria Donut, organizada por Kate Raworth, onde se explana a teoria neste livro.

Quer saber como essa teoria esta sendo aplicada na prática e como ela funciona? Eu te explico no audiocase desta edição

Temos algumas dicas para te dar no próximo Pico.

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