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Provocações

NA PERSPECTIVA

DO CONSUMO

Daniele Martins

23 de janeiro de 2021

Vejo que a tendência de um consumo consciente, marcas que buscam um papel social (ou ao menos se posicionam dessa maneira), vem aumentando cada dia mais. Uma nova moda? Uma nova onda de consciência? Ou apenas mais uma forma de produzir mais dinheiro?

 

Quando falamos sobre consumo consciente, vocês percebem que ainda estamos falando sobre consumo? Vira e mexe me pego refletindo sobre em qual momento fomos engolidos por um mundo onde não sabemos o propósito de comprar o que estamos comprando, em qual momento entramos no piloto automático que é sair para almoçar e olhar vitrines, entrar nas lojas e comprar alguma coisa. E eu estou inclusa nisso. Quem é que não sente aquele quentinho no coração depois de comprar uma blusinha nova ou ver uma caixa da Amazon chegando em casa?

 

Pequenos prazeres da vida adulta? Ou apenas um sintoma de vício? Vivemos em uma sociedade hedonista, onde ao mesmo tempo, convivemos com 322 milhões de pessoas sofrem de depressão (até maio de 2019, segundo a OMS) ao redor do mundo. A Laurinha Lero, DJ do podcast (ou programa de rádio) Respondendo em Voz Alta, brinca que chegará o momento em que nós pagaremos para NÃO experienciar. Está tocando uma música no restaurante? Pago 50 centavos para desligar. E nós iremos sabotar nosso próprio hedonismo quando o prazer for o não-prazer.

 

Às vezes me flagro pensando “em quantos dias será que eu consigo terminar essa série se eu assistir dois episódios por dia?” sem nem mesmo saber se no segundo episódio eu ainda vou estar me divertindo enquanto assisto; ou usando a calculadora de tempo do kindle para imaginar se consigo acelerar meu tempo de leitura para ler mais livros em um espaço menor de tempo.

 

Me pergunto em que momento o padrão do consumo e esse falso (e breve) prazer de “sermos produtivos” invadiu nosso dia a dia, nossos momentos de lazer a ponto de corrermos para maratonar uma série. 

 

Quando foi que chegamos ao ponto de precisar ler um artigo no linkedin para tomar consciência sobre a importância do ócio? será que alguém coloca momentos de ócio na agenda?

 

Atualmente, tenho feito o exercício de entender que o preço das coisas é o quanto eu dedico de vida à elas, e refletir se aquilo vale a pena. Por exemplo, quantas horas do seu trabalho seriam necessárias para comprar uma calça de R$100,00, considerando o valor que você recebe por hora, que resulta no montante do seu salário ao final do mês? Vamos supor que você receba R$15,00 por hora, de forma que, para comprar a calça de R$100,00, você precisaria trabalhar quase 7 horas. Até aí tudo mais ou menos bem, mas agora quero que você reflita: se o seu chefe te ligasse às 8 da manhã de uma terça-feira e dissesse “Oi, fulano! Tudo bem? Hoje nós não iremos te pagar em dinheiro. Em troca das suas 7 horas de trabalho, você será pago com uma calça”. Você aceitaria?

O mesmo vale para o nosso consumo de conteúdo. Gastamos horas nos atualizando, acompanhando a série do momento, assistindo Soul porque não aguentava mais ver divulgação em todos os sites que abria (pelo menos esse valeu o tempo de vida, né? <3), acompanhando e atualizando nosso feed no instagram, sem perceber que, no fundo, tudo isso também é uma forma de trabalho, e que por não selecionarmos os conteúdos que acompanhamos, as “semanas gratuitas de XPTO” em que nos inscrevemos, nós estamos não só gastando tempo de vida, mas também “vendendo” capacidade mental. Nos saturamos de informações e atividades até nos estressarmos a ponto de precisar parar.

 

Em algum momento, nosso ritmo de consumo de artefatos transformou-se também em um consumo de conteúdo e informações; a cobrança por produtividade no trabalho tornou-se também um hábito em nossas vidas pessoais. Agora nós precisamos tirar férias não só do trabalho, mas de nós mesmos.

Marcas mais humanas

Uma forma de tornarmos o consumo mais humano é criando uma marca mais humana, mas para além das comunicações nas redes sociais.

Por exemplo, a C&A tem uma proposta inclusiva, tanto em suas comunicações quanto em suas coleções, mas eu me pergunto: quanto será que a costureira que fez aquela roupa inclusiva ganhou? será que a produção foi inclusiva para ela também?

Bem, eu pesquisei, mas tudo que encontrei foram informações sobre os salários dos estilistas, e um artigo da Beatriz Abrantes, escrito para a Fala Universidades, chamado “Moda e Trabalho: O Valor da tua Blusinha”, que diz o seguinte:

 

“Costureiras são escravizadas em muitas oficinas. Ganham por produção, cerca de 10, 20, 30 centavos. Elas têm que trabalhar muito para conseguir sobreviver”, é o que sente a costureira Aparecida Tributino de Souza, de 41 anos.

Com doze anos de experiência na área, ela mostra que a desvalorização não vem apenas de seus salários, mas também da quantidade de trabalho que lhes é exigida e a forma de tratamento dentro do próprio mercado têxtil. “Ainda tem que fazer 300 peças por dia, se ela não dá conta, ela é humilhada, é chamada de burra.[...]”


 

“Quando a gente tá começando a costurar, a gente pensa que costurar para C&A, pra Marisa, ou Pernambucanas, ou só por ser representantes deles, que a gente vai ganhar muito dinheiro. Só que é ilusão, porque às vezes um camelô tira mais lucro do que você que trabalha em uma magazine famosa”, diz Ivete.”

[...]

 

“O que é mais interessante, porém, é que todas as costureiras entrevistadas certificam que, quando o assunto é costura, não há nenhuma diferença entre as roupas destinadas às lojas de departamento e às lojas no Brás. Ozolita Maria Freitas da Silva, de 43 anos, deixou o mundo da costura e hoje é auxiliar técnica de educação.  “Já costurei pra C&A, pra Renner e pra Riachuelo. A mesma pessoa que leva o serviço para nós levava de várias lojas. A gente só sabia que era daquela loja por causa das etiquetas”.”

É claro que a quantidade de trabalho exigida destas mulheres tem relação direta com a quantidade de coisas que consumimos, mas vejo que o buraco é mais embaixo.

 

Enxergo que nossa atual cadeia de produção funciona da seguinte forma:

Quando falamos de consumo consciente, nós normalmente estamos tratando as duas últimas partes da cadeia, quando o maior impacto ambiental e humano acontecem nos dois primeiros itens. Dificilmente refletimos sobre o local de onde determinado artefato veio e como foi produzido, mas nos perguntamos como iremos usá-lo e, no máximo, se é reciclável ou não. E aqui fica a minha reflexão (sem conclusão): a solução para um consumo mais consciente está em continuar consumindo enquanto pensamos “eu realmente preciso dessa blusa?” ?


 

Quando questionado sobre o preço das peças do laboratório fantasma, no roda viva do dia 27/07/2020, o Emicida disse o seguinte:

“Eu não vou vender uma camisa a R$ 9,90 e pagar um salário de miséria a uma mulher que poderia ser minha mãe. Quem tem que se questionar sobre o preço das coisas que vende são pessoas que conduzem essa cadeia de uma forma irresponsável, que mantém pessoas em um sistema de produção que são análogos a escravidão. A gente não se relaciona com isso. Todas as pessoas que se vinculam com a Laboratório Fantasma, seja em qualquer função, essas pessoas usufruem dessa conquista e é por isso que no nosso desfile de moda as costureiras estão lá na primeira fila chorando, emocionada porque elas nunca tinham experimentado costurar uma roupa e poder assistir aquilo ser lançado junto com os jornalistas chiques, junto com os críticos de moda f*das, junto com os empresários, junto com os artistas, isso é uma conquista coletiva. Então essa crítica não chega a me ofender”

Mas, vou além do salário: qual a representatividade que a empresa trabalha, além da comunicação? Apesar de utilizar pronomes neutros nas redes sociais, ou pintar o fundo de uma arte com as cores da bandeira LGBTqia+, ou contratar modelos pretos para as campanhas de marketing, quantos (as) transexuais fazem parte da carteira de funcionários dessa empresa, por exemplo? Qual é o cargo das pessoas pretas dentro desta corporação? Qual a porcentagem de mulheres dentre os C levels?

 

Ao tratar de moda, deixo a indicação do aplicativo Moda Livre, que analisa e categoriza os maiores varejistas do país com base nas condições de trabalho de suas cadeias produtivas. O app leva em conta os seguintes critérios:

 

1. Políticas: compromissos assumidos pelas empresas para combater o trabalho escravo em sua cadeia de fornecimento.

 

2. Monitoramento: medidas adotadas para fiscalizar os fornecedores de roupa.

 

3. Transparência: ações tomadas para comunicar aos clientes o que tem sido feito para monitorar fornecedores e combater o trabalho escravo.

 

4. Histórico: resumo do envolvimento das empresas em casos de trabalho escravo, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

 

Conclusão

Sei que está na moda falar sobre o consumo consciente, uma moda mais versátil, minimalismo, etc, mas relembro aqui uma reflexão trazida pelo Pedro Piovan em uma adaptação do artigo de Thomas Goetz:

 

“Imagine que você tem uma loja de rosquinhas (ou donuts). Você vende rosquinhas todos os dias para alguns clientes novos, outros que já são conhecidos da casa. Especialmente, existe uma pessoa que vai todo dia na sua loja e compra algumas rosquinhas para viagem.

 

A cada novo sabor lançado, essa pessoa compra ansiosamente algumas unidades.

 

Sempre quando essa pessoa chega na hora de fazer o pagamento, ela já vai abrindo a caixa ansiosamente para comer uma rosquinha antes de finalizar o pagamento.

 

Um certo dia, ao ver esta pessoa saindo da loja com sua sacola, você decide perguntar: "você gosta de rosquinhas?"

 

E a pessoa te responde: "na verdade, eu gostaria de comer menos rosquinhas e comer mais alimentos saudáveis. Mas eu não consigo resistir!".

 

E o comportamento se repete.”

Hoje, esses produtos que produzimos com o rótulo de “consumo consciente”, é uma loja de rosquinhas ou colabora para que seus consumidores tenham uma vida mais saudável?

 

“Se podemos realmente fabricar produtos que atendam às necessidades das pessoas, mas também produzir um ambiente melhor e mais saudável, e clientes mais saudáveis e felizes, então estamos construindo algo verdadeiramente irresistível.”


 

Te convido, agora, para uma reflexão que tem ficado em minha mente já há algum tempo: o quão inclusiva, humana, ou ao menos saudável, é a produção do produto em que você trabalha ou que está consumindo? Qual o primeiro passo que eu posso dar em direção à essa realidade?”

 

Se você chegar em alguma resposta, insight, ou quiser apenas trocar mais sobre o assunto, não deixe de me acionar :)

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