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Provocações

DA BOCA

PRA FORA?

Fabio Iori

13 de fevereiro de 2021

Não é exagero dizer que a pandemia da covid-19 provocou uma verdadeira corrida por novos modelos de negócios, desenvolvimento de produtos e serviços, por empresas que antes se encontravam em um lugar de conforto, acomodadas em seguir o status quo regido pelo mercado e por seus maiores players. 

 

A tal da “inovação” que, convenhamos, não é algo novo para ninguém, teve que ser enfrentada de frente por profissionais e negócios que possuem qualquer nível interesse de sobrevivência (que, aqui, entendemos como todos) meio ao caos provocado por um vírus que alterou nosso convívio social e relações de consumo. 

O que também é interessante notar, entretanto, é como essa inovação forçada escancara abordagens “da boca para fora”, quando a imagem e a comunicação de dada empresa passam uma mensagem que não se sustenta na prática, quando o bicho pega de verdade.

 

Aqui, trazemos dois principais tipos de negócios, extremos, que ilustram o cenário atual da inovação: de um lado, empreendedores individuais, pequenas e médias empresas que, sem o capital e o acesso a conhecimento formal para inovar de forma estruturada e com a mitigação de caminhos não tão frutuosos ao negócio, embarcam em uma jornada de tentativa e erro, inovando in loco, em uma dinâmica de sobrevivência letal, como uma savana, na qual a escolha de um caminho pode significar o encerramento de suas atividades. 

 

No outro extremo, temos as grandes empresas, com capital e conhecimento disponíveis para estruturar processos de inovação, mas que, por muito tempo, os deixaram adormecidos ou relegados a peças de comunicação com o intuito de ganhar capital social de empresa inovadora e descolada. 

Claro, existem muitas exceções em ambos os tipos de negócios aqui levantados, mas trago os dois extremos para levantar um ponto: a inovação não deve ser mantida como uma carta na manga, reservada a momentos de crise, com a expectativa de que salvará milagrosamente o negócio em um curto espaço de tempo - ela deve ser tratada como uma parte vital do organismo da empresa, alimentada e cuidada de forma constante, para que inclusive forneça força suficiente para enfrentar períodos críticos. 

 

Essa questão fica ainda mais interessante quando analisamos as estruturas desses dois tipos de negócio. Podemos usar a analogia de um jet ski e de um navio de cruzeiro. 

 

Os empreendedores individuais, pequenas e médias empresas, possuem a capacidade de inovar e tomar riscos, ainda que de forma menos estruturada e que podem impactar duramente o negócio, de forma muito mais ágil, seja pela menor (ou falta de) burocracia interna, seja por sua estrutura muito mais enxuta, que permite guinadas de direção mais incisivas e rapidamente aplicáveis. 

 

As grandes empresas, embora tenham acesso a capital e conhecimento, possuem estruturas muito mais pesadas, burocráticas, com diversas áreas que dialogam direta ou indiretamente, o que, consequentemente, impacta na velocidade de tomada de decisões estratégicas, mesmo em períodos de crise, quando a agilidade é chave. 

 

A guinada de direção é muito mais lenta, o que, como sabemos, pode ser fatal no tempo em que vivemos (podemos citar aqui os exemplos clássicos da Blockbuster, Kodak, Nokia e Blackberry).

 

O trato da inovação como um elemento quase que imagético, de fachada, por grandes corporações cobrou o seu preço quando a crise sem precedentes, provocada pelo novo Coronavírus, forçou a todos a busca por novos modelos. 

 

Sem a força para se sustentar, e com um enorme peso estrutural para tomar decisões rápidas e assertivas, vimos muitas empresas patinarem na busca por modelos de negócios para esses (novos) tempos. Com essa tomada de consciência, hoje encontramos organizações em uma corrida contra o tempo para tornar suas operações mais enxutas e suas equipes mais integradas, com o objetivo de fomentar a inovação sistêmica e como modus operandi, e não como algo pontual. 

 

Em uma relação quase contraintuitiva, vemos grandes empresas perseguindo o modelo de startups e pequenas empresas, enxutas e conscientes o suficiente para praticar a inovação, de fato - que, mais cedo ou mais tarde, são incorporadas ao sistema. O ponto não é que a inovação é um produto exclusivo de empresas menores, mas que é facilitada por suas estruturas, o que sinaliza uma direção a ser seguida pelas organizações colossais, globais e engessadas que sofrem em acompanhar as imprevisibilidades de um mundo volátil.

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