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Aprofundamento

LUZ, CONSPIRA, AÇÃO!

Gustavo Moreno

30 de junho de 2021

"Os fatos não deixam de existir só porque são ignorados."

- Aldous Huxley

Por que teorias conspiracionistas atraem tanto?

 

Antes de buscar responder essa pergunta, e antes mesmo de explicar o que é uma teoria conspiracionista, vamos começar esse aprofundamento, conceituando pensamento crítico.

 

 

Em uma das suas muitas definições, o pensamento crítico "tem sete características críticas: ser inquisitivo e curioso, ter a mente aberta para diferentes lados, ser capaz de pensar sistematicamente, ser analítico, ser persistente para a verdade, ter confiança no próprio pensamento crítico e, por último, ser maduro." (Facione P. A., Falcione N. C., 1993). 

 

 

O pensamento crítico é um aliado poderoso tanto no processo da inovação quanto no processo de evitar "cair" em conspirações. 

 

 

De 1993 até 2021, conceitos como criatividade, descoberta, reflexão, empatia, conexão de conhecimento, ambiguidade e inclusão foram somados à definição de pensamento crítico.

 

 

Falando em pensamento crítico, se a questão que temos aqui é "por que teorias conspiracionistas atraem tanto?", a pergunta que realmente estamos buscando uma resposta deveria ser "por que as pessoas acreditam em algo?" 

 

 

A resposta para essa pergunta, é claro, passa por diferentes e diversas razões. Não existe apenas um motivo que faz com que uma pessoa acredite em algo. Seria muito fácil se pudéssemos colocar essa responsabilidade na conta de um só fator, tipo, a culpa toda é do grupo de família do Whatsapp. Ou a culpa é da Globo, ou ainda, o grande culpado é aquele determinado partido. 

 

 

Um artigo intitulado "Teorias da conspiração: como são adotadas, comunicadas e quais são os seus riscos?", buscou responder a pergunta que dá o título dessa edição da Passeio, do ponto de vista político, sociológico e psicológico. 

 

 

Em resumo, os autores nos dizem que uma variedade de fatores psicológicos prediz a extensão para o qual os indivíduos irão endossar teorias da conspiração. Especificamente, necessidades existenciais (por exemplo, necessidade de poder e controle), traços de personalidade (por exemplo, narcisismo e Maquiavelismo), fatores cognitivos (por exemplo, cognitivos preconceitos e inteligência), e uma tendência subjacente de desconfiar e perceber conspirações, todos predizem crença de conspiração. 

Alguns fatores demográficos, como nível de educação (menor nível de educação está ligado a maior conspiração crença) também predizem a crença na conspiração. Outro aspecto é a identificação com o próprio grupo, que pode trazer suspeita quanto às ações de outros grupos. 

 

Por fim, mas não menos importante, o extremismo político (e em particular a ideologia de direita) está consistentemente associada a crença conspiracionista. As pessoas tendem a acreditar em novas teorias de conspiração que se alinham com suas tendências políticas pré-existentes. Outras variáveis ​​ideológicas, como autoritarismo, orientação de dominação social e justificação do sistema, são traços que predizem a crença em teorias da conspiração.

 

Este mesmo artigo, publicado pelo Centro de Pesquisa e Evidências sobre Ameaças à Segurança, define teorias da conspiração como a tentativa de descrever eventos relevantes socialmente e politicamente, por meio de ações secretas de grupos poderosos. Teorias de conspiração podem ser medidas usando pesquisas através de diferentes métodos, como pesquisas (enquetes) ou também por meio da análise e programação de dados arquivados, como comentários online, por exemplo.

Conspirações sempre fizeram parte da humanidade?

Acreditar em teorias da conspiração e suspeitar das ações dos outros é, de certa forma, uma característica bastante adaptativa a se fazer em prol da sobrevivência. Seres humanos não querem, necessariamente, confiar em todos e em tudo o que está acontecendo ao nosso redor. Por tanto, as conspirações sempre estiveram entre nós e, até certo ponto, as pessoas estão todas, sem exceção, fadadas a serem consideradas conspiracionistas, dependendo de como esse termo for utilizado. 

 

Indo direto ao ponto, sim, as conspirações sempre estiveram - e sempre estarão - no meio de nós. Na humanidade, sempre existiram pessoas que acreditaram em alguma (ou algumas) teorias da conspiração. Desde que o mundo é mundo, as pessoas compartilham essas crenças conspiratórias e têm essas suspeitas sobre certas ações coletivas feitas por indivíduos, consideradas ameaçadoras. Esse é nosso jeitinho de ser.

 

Eu tenho para mim, que nessa altura do campeonato, cada um e cada uma do planeta - dada as limitações do próprio contexto - já percebeu, de uma forma ou de outra, que a sociedade está cada dia mais complexa. Novos serviços, produtos, conteúdos e  informações são gerados e compartilhados entre nós. O objetivo aqui não é aprofundar em como chegamos até aqui, isso o Leozito (Leonardo Chiodi) já fez na segunda edição da Passeio.

 

Dessa vez, vamos explorar a complexificação das relações sociais focando na confiança que temos sobre as informações (e dados) e principalmente na desconfiança que temos sobre alguns. 

Conspirações reais existem?

 

De acordo com o "Manual das Teorias da Conspiração" feito para o público fora da comunidade científica, publicado pelos pesquisadores Stephan Lewandowsky, da Escola de Psicologia Experimental da Universidade de Bristol, e John Cook, do Centro para a Comunicação das Mudanças Climáticas da Universidade George Mason nos ajuda a entender por que essas teorias são tão populares e explica como identificar os sinais do pensamento conspiratório, além de apresentar uma lista de estratégias efetivas de desmistificação.

 

Conspirações reais de fato existem. Hoje em dia sabemos, por exemplo, que a Volkswagen fraudou os testes de emissão de seus motores a diesel, que a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos espionou usuários de internet secretamente, que a indústria do tabaco iludiu o público em relação aos efeitos prejudiciais do cigarro à saúde. 

 

Atualmente, nós sabemos dessas conspirações por causa de documentos internos dessas indústrias, de investigações governamentais e de delatores. Teorias da conspiração, por outro lado, tendem a persistir por um longo período, mesmo quando não possuem evidências conclusivas. Essas teorias se baseiam em uma série de padrões de pensamento conhecidos por serem ferramentas não confiáveis para acompanhar a realidade. Tipicamente, as teorias da conspiração não se baseiam em evidências que resistam ao escrutínio, mas isso não as impede de ganhar projeção. Por exemplo, a crença generalizada de que os ataques terroristas de 11 de setembro foram um “trabalho interno” persistiu por muitos anos.

Pensamento Convencional vs. Pensamento Conspiratório

 

Segundo este mesmo manual, as conspirações reais não apenas existem, mas elas raramente são descobertas a partir dos métodos usados pelos teóricos da conspiração. Ao invés disso, conspirações reais são descobertas por meio do pensamento convencional— ceticismo saudável em relação às versões oficiais, considerando cuidadosamente as evidências disponíveis e comprometendo-se com a coerência das informações. O pensamento conspiratório, por outro lado, se caracteriza por ser hipercético em relação a toda informação que não favoreça a teoria, por interpretar excessivamente as evidências que apoiem uma teoria preferida e pela incoerência.

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O guia publicado foi traduzido para o português pelas pesquisadoras Dayane Machado e Minéya Fantim, do Laboratótio de Estudo Avançados da Unicamp (Labjor) e pode ser lido na íntegra aqui.

 

Além de ilustrar as diferenças entre o pensamento convencional (ou crítico) do pensamento conspiratório, o documento também apresenta sete sinais do pensamento conspiratório que foram abreviados no acrônimo CONSPIR (em inglês):

  • Contradição (Contradictory): Os teóricos da conspiração podem acreditar simultaneamente em ideias que sejam mutuamente contraditórias. Acreditar, por exemplo, na teoria de que a Princesa Diana foi assassinada, aceitando ao mesmo tempo que ela forjou a própria morte. Isso ocorre porque o comprometimento dos teóricos com a descrença na narrativa “oficial” é tão absoluto, que não importa se o sistema de crenças é incoerente.

  • Suspeita absoluta (Overriding suspicion) O pensamento conspiratório envolve um grau niilista de ceticismo em relação à narrativa oficial. Esse nível extremo de desconfiança impede que se acredite em qualquer coisa que não se encaixe na teoria da conspiração.

  • Intenção nefasta (Nefarious Intent) As motivações por trás de qualquer suposta conspiração são, invariavelmente, consideradas nefastas. As teorias da conspiração nunca presumem que os supostos conspiradores tenham boas intenções.

  • Algo deve estar errado (Something Must Be Wrong) Apesar de os teóricos da conspiração ocasionalmente abandonarem ideias específicas quando elas se tornam insustentáveis, essas revisões não mudam as conclusões gerais de que “algo deve estar errado” e de que a narrativa oficial se baseia em uma fraude.

  • Vítima perseguida (Persecuted Victim) Os teóricos da conspiração se apresentam e enxergam a si mesmos como vítimas de uma perseguição organizada. Ao mesmo tempo, eles se consideram adversários corajosos enfrentando conspiradores vilanescos. O pensamento conspiratório envolve a autopercepção de vítima e de herói simultaneamente.

  • Imune a evidências (Immune to Evidence) As teorias da conspiração são inerentemente autoajustáveis. Uma evidência que contrarie uma teoria é reinterpretada como se ela fosse parte da conspiração. Isso reflete a crença de que quanto mais forte for a evidência contra uma conspiração (ex.: o FBI absolvendo um político de alegações sobre o uso indevido de um servidor de email pessoal), mais os conspiradores se esforçarão para que as pessoas acreditem em sua versão dos eventos (ex.: o FBI era parte da conspiração para proteger o político).

  • Reinterpretação da aleatoriedade (Re-interpreting Randomness) A suspeita absoluta encontrada no pensamento conspiratório resulta, frequentemente, na crença de que nada acontece por acaso. Pequenos eventos aleatórios, como as janelas do Pentágono intactas após os ataques de 11 de setembro, são reinterpretados como se fossem parte da conspiração (se um avião tivesse atingido o Pentágono, todas as janelas teriam se quebrado) e são adicionados a uma narrativa ampla e interconectada.

 

Conspiração gera conspiração 

“A verdade objetiva tem menor relevância do que a familiaridade: nós tendemos a acreditar em mentiras quando elas são frequentemente repetidas.”

 

 

Um artigo da Verge de 2019 investigou a rotina de quem trabalha com moderação de conteúdo no Facebook. Sim, existem pessoas sendo pagas pelo Mark Zuckeberg para assistir e depois excluir os conteúdos mais tóxicos e inimagináveis da rede social. 

 

 

Mais estranho do que existirem cerca de 1.000 pessoas no escritório do Facebook em Phoenix (EUA) moderando conteúdo e outras 15.000 pessoas que são revisoras de conteúdo espalhadas pelo mundo, é o fato do que acontece com essas pessoas...com o tempo elas começam a acreditar em algumas conspirações detestáveis que elas mesma teriam rejeitado em outras circunstâncias. Se elas não fossem pagas para literalmente assistir (e moderar) os vídeos e conteúdos mais pesados que existem na internet.

 

Qualquer semelhança com o universo de 1984, onde na Oceania todos odeiam o inimigo, a Eurásia, e são forçados a lembrar lembrados disso diariamente durante o programa 'Dois minutos de ódio', no qual imagens do exército eurasiano, assim como a figura de seu líder, eram exibidas para que a população canalizasse sua raiva, aprendesse a odiar instintivamente seu inimigo. 

 

Alguns dos relatos dos moderadores, captados pela reportagem, contam que o ambiente de trabalho - um lugar infestado de vídeos de conspiração e memes vistos diariamente - que os levam gradualmente a abraçar visualizações marginais. Histórias de um auditor andando pela sala e promovendo a ideia de que a Terra é plana, ou de um ex-funcionário dizendo que começou a questionar certos aspectos do Holocausto e até um outro ex-funcionário, que confessou ter mapeado todas as rotas de fuga para fora de sua casa e que dorme com uma arma ao lado: “Não acredito mais que 11 de setembro foi um ataque terrorista”.

A origem de inúmeras teorias da conspiração

"Embora a desordem seja, em geral, mais provável, a desordem total é impossível"

T. S. Motzkin

 

Se você reproduzir ao contrário o CD da Xuxa, você vai escutar uma mensagem satânica? A resposta é não, e sabemos disso graças a um princípio matemático chamado "teoria de Ramsey".

 

Então, o que diz a teoria de Ramsey? Resumindo, ela diz que, com elementos suficientes num grupo ou numa estrutura, é certo que algum padrão específico interessante apareça entre eles. 

 

Como exemplo simples, o chamado "problema da festa", uma ilustração clássica da teoria de Ramsey nos diz que se tiver pelo menos seis pessoas numa festa (ou numa rede social), podemos afirmar que, num grupo com três delas, ou todas se conhecem ou nunca se viram antes, sem saber absolutamente nada sobre elas. 

 

Para facilitar o entendimento, vejamos esse exemplo dado pelo Walner Mendonça, cujo tese de doutorado no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) abordou a teoria de Ramsey e as relações de interesses comuns em grupos de usuários em redes sociais (alternativo ao 'problema da festa').

 

“Suponha que, em uma rede social, todos os usuários são amigos. Porém existem dois tipos de amizades, os quais distinguiremos pelas cores azul e vermelha. Ademais, cada dois usuários compartilham uma amizade vermelha ou azul, mas não os dois tipos de amizade ao mesmo tempo. Essa ilustração descreve o que em combinatória chamamos de grafo completo 2-colorido.”

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"O interessante é que não é difícil provar que a rede social deve ser inteiramente conectada necessariamente em uma destas cores. Para alguma destas duas cores, digamos que a azul, é possível conectar quaisquer dois usuários da rede social por um grupo de usuários formando uma cadeia de amizades azuis. Embora Letícia e Pedro compartilhem uma amizade vermelha, podemos conectá-los em azul usando, por exemplo, a amizade azul compartilhada entre eles e Luiz.”

 

Por mais que a teoria de Ramsey nos dê a garantia de que existe um número mínimo de padrões em determinado sistema, isso não significa que seja fácil de descobrir, e principalmente, de interpretar esse(s) padrão(ões). 

 

Neste caso, à medida que o número de pessoas analisadas na rede social aumenta, as combinações saem de controle. Por exemplo, digamos que estamos tentando descobrir o número mínimo de perfils onde há um grupo de cinco pessoas em que todas se conhecem ou não. Embora cinco seja um número pequeno, é praticamente impossível descobrir a resposta através de uma busca exaustiva como essa. Isso se deve simplesmente ao volume de possibilidades. Um grupo com 48 convidados tem 2^(1128) configurações possíveis, que é mais do que o número de átomos de todo o universo. 

 

Mesmo com a ajuda de computadores, o máximo que sabemos é que a resposta a essa pergunta é algo entre 43 e 49 convidados. O que isso nos mostra é que padrões específicos com probabilidades aparentemente astronômicas podem surgir a partir de um conjunto relativamente pequeno. Com um conjunto muito grande, as possibilidades são quase infinitas.

 

Então, quais as chances do CD da Xuxa tocado de trás para frente, realmente conter uma mensagem secreta? Bem, quando você leva em conta o número de letras, a variedade de possíveis palavras relacionadas e todas as suas variações de tom, as chances são bem altas. Você pode tentar. Escolha uma música favorita, escute ela de trás para frente e veja qual mensagem consegue escutar. Como evoluímos para perceber padrões e sinais em meio ao ruído, normalmente somos tentados a achar um significado onde talvez não exista. Embora possamos ficar impressionados com mensagens escondidas em músicas infantis, sua verdadeira origem geralmente é a nossa própria mente.

Temos uma provocação a fazer no próximo Pico.

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