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Provocações

LIVRE

ARBÍTRIO?

Fabio Iori

20 de outubro de 2021

Image by Mahdi Bafande

Na aula de abertura de um curso que iniciei recentemente, um dos professores fez uma pergunta à turma de cerca de 30 alunos: você acredita em livre arbítrio? Como seguimento à provocação, pediu para que as pessoas se dividissem em dois grupos, de acordo com sua crença. Cada grupo teve seu devido espaço para suas argumentações contra e a favor - mas esse desdobramento não nos convém agora. Quando a pergunta foi levantada, causou surpresa (menos pelo seu teor, mais pelo contexto em que foi feita). E a grande maioria das pessoas já parecia ter convicção e um posicionamento firme naquilo que acreditavam. Nessa situação, esse questionamento teve uma abordagem mais branda, em relação à vida como um todo. Agora, se o trouxéssemos de volta, mas com foco puramente nas nossas vidas no ambiente digital, as respostas seriam as mesmas?

 

 

Acredito que, como leitor ou leitora da Passeio, o conceito de algoritmos e o seu impacto na nossa vida digital devem estar minimamente claros para você. Estamos imersos em uma malha invisível que coleta nossos passos e cliques, até as menores migalhas, como uma teia de aranha cautelosamente tecelada. Da mesma forma que no ambiente selvagem, tudo o que é capturado por essa malha vira alimento, não para um aranha esfomeada, mas para organizações, profissionais e interesses pautados no nosso novo ouro: os dados.

 

 

Essa malha, tão bem alimentada, tornou-se extensa o suficiente para envolver o universo digital em quase sua totalidade. Hoje, temos uma noção mínima de como e o quanto somos rastreados. Cada clique, leitura, tempo de permanência em um determinado vídeo ou conteúdo e interação é utilizado para construir perfis assustadoramente assertivos de cada um de nós. Esse rastreamento e construção de perfis de internautas (leia-se consumidores potenciais) são, hoje, a coluna vertebral de muitos modelos de negócios de empresas digitais e como muitas outras se beneficiam e enxergam e entregam valor por meio da internet - afinal, se a navegação e o consumo são gratuitos, alguém deve pagar a conta. O resultado disso tudo, logo, é a criação de filtros, bolhas virtuais quase individuais, nas quais vemos e consumimos conteúdos de acordo com o que alimentamos nossos algoritmos pessoais, em um ambiente que conta com as premissas de trocas e conexões globais. Entretanto, como atingir esse ideal se estamos tão imersos em nossos próprios universos particulares?

Com o advento de soluções que visam ampliar o acesso à internet, tanto em usuários, quanto em objetos e aplicações por meio da Internet das Coisas (IoT), veremos um influxo de dados ainda maior - e, o mais importante, com qualidade de assertividade igualmente proporcional. Afinal, se temos mais dispositivos e pessoas conectadas, temos fontes de informações mais ricas e holísticas, uma vez que o rastreamento do usuário pode ser feito além de sua interação direta com uma tela. Ainda que estejam em desenvolvimento e implementação diversas iniciativas de proteção de dados, como a LGPD, no Brasil, sabemos que o regulamento do ambiente digital pode ser algo de difícil controle, dependendo muito do policiamento dos próprios usuários. Um exemplo do cotidiano: quantas vezes mencionamos algo em uma conversa, com o celular em repouso, para logo em seguida nos depararmos com um anúncio sobre o tema que conversávamos, mesmo com a (incrédula) garantia de muitas organizações de que esse rastreamento não é feito. Com a consolidação de tecnologias como a inteligência artificial e machine learning, que podem lidar melhor com grandes quantidades de dados do que seus homólogos humanos, a chegada da Era do dataísmo só tende a ficar mais próxima.

Com isso, podemos dizer com firmeza que algoritmos e dados são inimigos? A resposta, como você deve imaginar, não vem como um simples "sim" ou "não". Comecemos pelas redes sociais, que, para alguns, é a cerne da internet. Nunca na história da humanidade tivemos acesso a tamanho agregador de ideias, conteúdos e pensamentos diferentes (e divergentes). O poder de conexão e troca permitido pelas redes sociais é algo difícil de se colocar no papel - as possibilidades são somente limitadas pelos moderadores dessas plataformas, que demarcam o que pode e o que não pode ser feito ali dentro, e pelos conteúdos aos quais temos acesso. Sim, acesso. E essa é exatamente a outra ponta da faca. Os algoritmos que regem os bastidores desses espaços digitais seguem uma agenda: devem nos mostrar aquilo, e somente aquilo, que nos interessa ou que pode estar alinhado a esses interesses. Dessa forma, o que encontramos nessas plataformas já é algo curado, podado de um todo mais diverso por algoritmos que possuem o poder, e a responsabilidade, de moldar o que e como consumimos. Nesse campo predeterminado, temos a ilusão de uma navegação livre, mas que é ditada por forças invisíveis que nos entregam esses conteúdos. Nós somos consumidores sem ter a consciência plena de que estamos consumindo, e isso é especialmente perigoso se buscamos construir futuros mais diversos e inclusivos - como construí-los se vivemos em bolhas de semelhantes?

Uma segunda vertente do poder de dados e algoritmos é o seu papel na melhoria de produtos e serviços, alguns deles tão onipresentes na vida contemporânea. Peguemos um exemplo de duas organizações de destaque, Google e Apple. Por mais que muitos pensem nas duas como "farinha do mesmo saco", elas possuem algumas abordagens diferentes no que tange a utilização de dados. O Google ainda tem como a espinha dorsal do seu modelo de negócio o mercado de anúncios digitais, que, para ser bem-sucedido e assertivo, precisa beber muito da fonte de dados dos usuários. Esse mesmo modelo se estendeu para outras soluções da empresa, como Google Assistente, Google Maps, Gmail e Google Docs, que, a partir da coleta e análise de uma quantidade massiva de dados, conseguiu desenvolver produtos e serviços líderes de categoria, atendendo demandas do consumidor, mas cobrando um alto, e escondido, valor: suas informações. Paralelamente, temos a Apple, que possui uma abordagem que valoriza mais a privacidade e o poder de escolha dos usuários sobre os seus dados - o que é um grande chamariz para muitas pessoas. Entretanto, em parte por conta dessa política mais controlada, certos produtos e serviços da empresa ficam aquém da concorrência, por terem um acesso mais restrito às informações para aprendizados e melhorias, como a Siri e o Apple Mapas. Não é à toa que muitos consumidores que possuem dispositivos da Apple continuam a usar soluções do Google.

A conversa sobre dados, algoritmos e como devemos lidar com eles ainda não é fácil, até pelo debate ser relativamente recente. Ao nos depararmos com algo novo, nossa resposta natural é de desconfiança, de rejeição - sentimentos que variam de intensidade de um para o outro, mas que estão ali em algum nível. Pelo mesmo motivo de sua ainda tenra idade, a própria regulamentação do uso ético de dados e algoritmos se encontra em um espaço nebuloso. Se as reais fontes de dados, nossas ações, ainda nos são naturais, ou seja, partem de ações inerentemente humanas, o produto disso tudo não deveria ser de propriedade do seu provedor? Afinal, os avanços recentes tecnológicos "apenas" permitem a coleta e análise de informações que já estavam ali muito antes, apenas não devidamente quantificadas e metrificadas. 

Enquanto não temos definições claras sobre o trato de dados e algoritmos, tanto do lado dos usuários quanto dos órgãos regulamentadores e das organizações, cabe a nós o ganho de consciência e a adoção de boas práticas. O consumo de conteúdos fora de redes sociais, para nos expor, no melhor sentido possível, às opiniões e visões diferentes das nossas, é primordial. Não falo necessariamente da migração do digital ao físico, que claramente pode ser um passo muito bem-vindo, mas o acesso a portais de notícias (ou qualquer outro tema de interesse) que estejam menos suscetíveis ao poder de escolha algorítmico. Nas redes sociais, talvez seja prudente seguir, ou ao menos checar esporadicamente, aqueles perfis e pessoas que evitamos, por mais detestáveis que possam ser. E esses hábitos devemos adotar com tudo o que nos rodeia, que nos é entregue de "mão beijada" ou que nos coloca em um local confortável e de conformismo - da arte à manchete do dia. Só assim podemos atingir futuros de abundância coletiva, sem o poder e os vieses de poucos. 

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