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Aprofundamento

LIBERDADE:

FALSOS CONCEITOS

Leonardo Chiodi

30 de novembro de 2021

Salto Alto ilustradas

O livre arbítrio nada mais é que a possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Platão e Aristóteles consideravam-no um fenómeno humano que importa esclarecer e compreender melhor, porque é da máxima relevância para o florescimento humano. 

 

Com a Revolução Científica, contudo, o livre-arbítrio tornou-se predominantemente um problema de compatibilidade, ganhando os contornos que hoje tem — apesar de serem já visíveis em alguns filósofos da Antiguidade, nomeadamente os estoicos e os atomistas. 

 

O que o transforma num problema de compatibilidade é o conflito que emerge da ideia de que todos os acontecimentos são efeitos de causas anteriores, caso em que também as decisões humanas o serão — e, por isso, não parecem sequer decisões genuínas, que tenham no livre-arbítrio humano a sua única origem relevante.

Claro. Existem diversas arestas que moldam alguns impulsos humanos, como as leis e a moral. Mas não é bem disso que vamos tratar aqui. 

 

Nessa reflexão, queremos abordar as pressões externas afetam diretamente nossas vontades e desejos. Você acha que tudo o que fazemos e decidimos por nossa conta e dizemos que é por nossa vontade é 100% genuíno?

 

Já parou para pensar em como as tendências, as redes sociais, a opinião de grupos que queremos nos encaixar, outras ilusões e armadilhas moldam nossas tentações? E mais: como essas pressões externas têm se tornado cada vez mais fortes, influenciando de forma direta o aumento desenfreado de índices de pessoas que sofrem com distúrbios mentais e de ansiedade.

 

Estamos cansados de conversar sobre como a quantidade de informações que recebemos afetam nossa saúde mental. Seria mais simples se fosse apenas "quantidade" o problema. Mas o conteúdo de toda essa chuva de conteúdo é extremamente relevante para entendermos como somos moldados.

 

A internet, principal responsável pela maioria desses estímulos, veio com a promessa de democratizar a comunicação. Fato: ainda não podemos dizer que é um ambiente totalmente democrático, mas não como discordar que abriu espaço para muita gente levantar suas vozes e levar pautas importantíssimas para pessoas que nunca teriam acesso a certos tipos de informação. Uma verdadeira revolução.

 

Mas há uma espécie de paradoxo aqui: essa democratização toda também traz seus ônus, como em pleno 2021, vermos pessoas com acesso a informação e educação questionando leis penais contra o racismo.

Além disso, vemos eleições sendo decididas ao redor do mundo com base em notícias inventadas e absurdas, pessoas realizando procedimentos estéticos e de saúde com qualquer profissional com mais de 10 mil seguidores e nenhum background acadêmico. Esse é o poder de um "arrasta pra cima".

 

Produtores sem qualquer relevância profissional são capazes de influenciar a compra de coisas pequenas, como produtos de beleza até cirurgias plásticas. As escolhas são pautadas pelo número de seguidores, feed organizado e alguns stories de 15 segundos. Pronto, está feito o estrago financeiro e mental.

 

A forma como desenhamos a internet, as relações sociais dentro dela e comunicação entre pessoas físicas e jurídicas trouxe muitos avanços. Mas o Design foi feito para colocar as pessoas no centro. 

 

Será que estamos fazendo isso? 

Temos uma provocação a fazer no próximo Pico.

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