Mistura, Forma e Significado


A forma demonstra o diálogo do nosso inconsciente coletivo junto com nossos insights.

Um dos maiores poderes do design é criar formas que tem significado. Sempre quando um designer vai criar uma tela de aplicativo, uma newsletter, cartaz e inclusive um modelo de negócio, sua premissa principal é que aquilo esteja carregado de um significado sólido (ou o que vem muito se falando de ter um propósito estabelecido).


Portanto tudo o que tem significado, tem forma. Se não há forma, se dificulta a forma de entrega-lo ou comunica-lo.


Exemplo: o Airbnb tem como propósito mudar o modelo de se hospedar, deixando-o mais harmônico e humano — este é o significado; como ela faz isso? Por meio de seu aplicativo, ou seja, a forma.


Com isso entendido, venho me questionando: como deixar o caminho entre significado e forma mais fluido? Na verdade, como entender este caminho.


A partir disso comecei a me aprofundar no estudo da mente humana. Afinal o caminho entre essas duas áreas acontece em nosso consciente e inconsciente.



Me aprofundando um pouco no tema, encontrei um artigo chamado Conceptual blending, form and meaning, escrito por Gilles Fauconnier e Mark Turner em 2003. Gilles é do Departamento de Ciência Cognitiva da Universidade da Califórnia e Mark do Centro de Estudos Avançados nas Ciências Comportamentais, da Universidade de Stanford (vou deixar o link do artigo completo aqui).


O artigo tem uma complexidade necessária ao assunto, por isso aqui neste texto vou digeri-lo ao máximo e trazer uma linha de raciocínio mais sólida.


Tomemos um caso como exemplo: uma corrida de barcos que foi divulgada pela revista Latitude 38, em abril de 1993.


Basicamente, em 1993, um barco moderno tentou cruzar o trajeto São Francisco-Boston mais rápido do que o recorde batido em 1853 (que foi feito em 76 dias e 8 horas).


O barco de 1993 é mais moderno e tem mais capacidade; e de 1853 é conhecido como o barco “fantasma”, por ter ido tão rápido que ninguém viu. Ambos irão fazer basicamente o mesmo trajeto, com o mesmo horário de início e as mesmas paradas.


A matéria trás o assunto assim (tradução livre):


Os navegadores do barco de 1993 estão 4.5 dias na frente do “fantasma”, que bateu o recorde do trajeto São Francisco-Boston em 1853 fazendo o trajeto em 76 dias e 8 horas.

Gilles e Mark argumentam que existem dois eventos que aconteceram em dois momentos diferentes, porém esta sendo atribuído o significado que estão acontecendo “ao mesmo tempo” quando comparados entre si, deixando alguns fatos importantíssimos ocultos na forma como é divulgado na revista.


Portanto está havendo uma mistura de dois inputs, se transformando em uma coisa só em um espaço misto.


Os dois cientistas explicam que existem 4 espaços centrais que fazem com que o significado se transforme em forma:


  1. O inconsciente coletivo é um espaço genérico, no qual estruturas, frames e processos são compartilhados em nossas mentes porém não são entendidos de forma igual por todos. Porém o mais importante esta aqui: essas estruturas sustentam uma nova construção ao misturar significados e trazer uma inovação à tona.;

  2. Em nosso consciente, possuem espaços para que os inputs sejam colocados: neste nosso caso, seria o trajeto dois dois barcos ainda separados;

  3. Um mapa em nosso inconsciente que é capaz de relacionar os significadosde eventos diferentes e encontrar a relação entre eles e assim projetar o seu cruzamento para….

  4. o espaço misto, no qual os significados se misturam e há a capacidade de formatar um formato para o que foi criado de forma mista.

Retirada diretamente do artigo.

Concretizando estes 4 espaços no exemplo:


  1. O espaço genérico é onde habita o entendimento coletivo de todos sobre o que é uma corrida de barcos;

  2. O espaço para os inputs são os dois eventos que ocorreram em anos diferentes;

  3. No mapa que possibilita o cruzamento de informações é onde reside o entendimento que ocorreram no mesmo espaço físico e passando pelos mesmos locais;

  4. Originando, dentro do espaço misto, uma matéria no qual cruza os pontos selecionados são semelhantes entre os dois inputs e resulta em uma forma de expor isto.


De forma muito simples, traduzi aqui o estudo de Gilles e Mark. É claro que tem muito a ser explorado ao ler o artigo, porém por hora destrinchei os espaços de nosso consciente e inconsciente por onde os significados transitam para que se crie uma nova forma.


Vale aqui algumas observações com base neste estudo:


  • Em um momento que fake news representa uma margem gigantesca do conteúdo disponível on-line, conseguimos entender que as pessoas que as reproduzem não costumam se preocupar com seus aspectos seletivos no mapa que cruza diferentes inputs (e muito menos com o espaço misto, ou seja, a forma como projetam informações);

  • O design tem um papel central em todas as etapas, mas principalmente no mapa de cruzamento e seleção de informações para projeção. Sem essa seleção de informações que realmente estão carregadas de significado, a construção da forma no espaço misto fica pobre.

  • Comente se você gostou do conteúdo — este é um termômetro para eu desenvolver o assunto ainda com base neste artigo, entrando mais afundo o que é significado.


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