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Aprofundamento

A IMPORTÂNCIA DE PASSEAR

Leonardo Chiodi

12 de setembro de 2020

Em uma rápida pesquisa, podemos encontrar duas principais definições para a palavra "Passeio":

 

1.
transitivo direto e intransitivo
ir ou conduzir (alguém ou um animal) a algum lugar, com o fito de (se) entreter ou exercitar; percorrer em passeio.
"passeava pela cidade todas as noites"

 

2.
intransitivo
mover-se, fluir, deslizar, divagar.
"o riacho passeava entre as margens"

O objetivo dessa revista está muito associado a esse termo. Aqui, entreter e exercitar têm uma ligação muito forte para a construção dos nossos Passeios. Peças e obras culturais que nos entretêm, divertem, mas que também conscientizam e exercitam.


Exercitam mentes inquietas que buscam diálogo com os mais diferentes pontos de vista, com o intuito de desenvolver suas próprias ferramentas e ajudar a criar um futuro diferente (melhor) para um mundo já condenado.

Pensamos em criar esse ambiente pois sabemos da potência dessa relação entre cultura e inovação. Os ambientes acadêmicos devem dialogar mais com ambientes corporativos que, por sua vez, também devem entender melhor as dinâmicas riquíssimas de um país que mais parece um caldeirão cultural que borbulha incessantemente.

 

Queremos te convidar para percorrer ruas, cidades, ambientes da forma mais fluida possível. Desacelere, sinta e observe o que passa às margens do rio que navegamos de forma acelerada. 

 

Em Passeio pelo Mundo Livre, Chico Science diz que "um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar".

 

Não importa qual seja a sua forma preferida de passeio. Se você gosta de fazer sempre o mesmo itinerário ou mudar de caminho todos os dias. Sempre temos uma absorção diferente quando nos permitimos prestar atenção no que nos rodeia.

Como diz Carl Honoré em seu livro Devagar: "As pessoas mais inteligentes e criativas sabem perfeitamente quando permitir que a mente divague".

 

Divagar.

 

Devagar.

 

Nossa ideia aqui é que cada Passeio abra portas diferentes para sua percepção. Passeios em forma de imagens, vídeos, áudios e leituras. Queremos provocar, questionar, agregar e compartilhar.

 

O convite está feito!

 

REPERTÓRIO

 

 

Aqui, Inovação e Cultura andam juntas. Mas será que existem lugares que esses dois campos não caminham em relação? Seja essa ligação dada em paralelos ou em tramas que se confundem e embaralham?

 

Acreditamos que toda inovação é uma solução com impacto positivo e sustentável para um problema complexo. Toda solução surge de alguma relação que as pessoas envolvidas tem com aspectos desse problema. 

 

Toda solução está relacionada ao repertório de quem a construiu. Seja essa construção realizada em coletividade ou individualmente. 

 

A absorção e desenvolvimento de repertório é fundamental para quem deseja ter uma gama criativa estimulante. A tal da empatia, exaltada com tanto entusiasmo, não vale de nada sem um repertório sociocultural capaz de se ajustar a contextos diversos.

 

Daí a importância de passear.

Muitas pessoas se prendem à ideia de que o ócio é inimigo, em prol de uma produtividade que nem faz mais sentido.

Se sentem mal em tirar um tempo para si. Quem define o que é produtivo ou não?

 

Em "O Direito à Literatura", Antonio Candido trabalha com o conceito de "bens incompreensíveis", os quais todas as pessoas deveriam ter direito, não apenas os que asseguram a sobrevivência física em níveis decentes, mas também os que garantem a integridade espiritual, relacionada às nossas humanidades.


Por experiência própria, muito do repertório que tenho (não é dos completos, tenho 25 anos e muito pra observar e absorver ainda) foi passeando sem rumo e observando - nas cidades, entrando em ruas, museus, e outros ambientes (públicos, claro!) que não conhecia; ou até de casa, fuçando em livros antigos dos meus pais ou navegando pela internet sem rumo, tentando me aprofundar em coisas que me entretêm.

E isso é valioso.

 

Querendo entender um pouco mais sobre o contexto da referência dada por algum artista na linha de certa música que compôs que ouvi com um amigo; ou me aprofundar na obra que vi em certo museu; entender mais da fala de uma personagem em um filme ou na história da comunidade de um bairro que passei no caminho da faculdade.

 

Não fazer parte de uma audiência apenas espectadora em uma era de bombardeio de informação nos ajuda a ser parte ativa da transformação de cenários, tirando esse aspecto tóxico do ócio.

 

Eu não falo muito. Então sempre tive uma facilidade maior em observar e tentar entender ativamente enquanto a minha cabeça ferve ao tentar absorver estímulos.

 

Esses estímulos são fundamentais para que eu consiga me desenvolver como pessoa e profissional em constante formação e "deformação".

 

Todo tipo de conhecimento merece atenção. Por mais indigesta que certa manifestação cultural possa parecer pra você, não tenha uma postura de preconceito. É importante não tirarmos conclusões antes de experimentar. Pode ter certeza que algum aprendizado você vai tirar, mesmo que inconscientemente, no futuro.

 

Nosso método de análise e construção de novas realidades deve passar pela arte.

 

MAS COMO?

Assistindo filmes. 

 

Lendo livros. 

 

Ouvindo álbuns musicais. Perdemos um pouco desse costume com o crescimento de plataformas de streaming e reformatação da indústria fonográfica. Playlists são legais, mas você já experimentou visitar um álbum completo e entender a linha de raciocínio criada pelos artistas envolvidos na obra?

 

Indo a museus. No momento que escrevo esse texto, ainda não podemos comparecer presencialmente em museus. Mas daremos algumas dicas interessantes de lugares que estão sendo traduzidos para o ambiente digital, democratizando ainda mais seu acesso; o que é muito importante.

 

Ousando entender novos estímulos. Vemos muitas pessoas bradando orgulhosamente que não gostam desse tipo de música, ou daquela certa religião. Mas será que essa pessoa já parou pra ouvir o que os responsáveis por essas manifestações e as pessoas influenciadas por elas têm a dizer? Quais mensagens elas querem transmitir e qual a caminhada que aquela cultura desenha diariamente em interação com seu público?

 

Meditando. É um baita passeio. Esvaziar a cabeça e sentir o presente ajuda muito organizar os estímulos que recebemos.

 

Nos aprofundando no que nos faz bem. Gosto muito de buscar pelas referências das minhas referências e, dessa forma, mergulhar nessas obras. Fazendo isso, descobrimos novos autores, ferramentas, organizações sociais, etc.

 

Escrevendo. Um exercício muito legal a se fazer para exercitar o repertório que absorvemos é abrir um caderno e começar a escrever o que vem à cabeça. Explorar nossa própria mente ajuda a colocar as ideias pra fora e buscar relações entre elas.

 

 

Mas agora temos uma provocação pra te fazer no próximo Pico.

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