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Audiocase

A TEORIA DONUT NA HOLANDA

Pedro Piovan

14 de novembro de 2020

Image by Jace & Afsoon

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Donut na HolandaPedro Piovan
00:00 / 14:29

Opa, pessoal!

 

Aqui é o Pedro. Provavelmente já deve me conhecer do nosso podcast, o Prototipando. 

 

Ou não também. Pode ser a primeira vez que a gente está falando aqui se você é um leitor ou uma leitora do Passeio.

 

De toda forma, no texto que eu escrevi nessa edição eu comentei sobre o modelo Donut. Pode parecer um pouco engraçado ou irônico mas o modelo Donut foi uma forma que a Kate Raworth consolidou e organizou como uma alternativa aos modelos econômicos já existentes pautados em critérios um pouco diferentes.

Bom, como você já deve ter lido os textos anteriores dessa edição, já deve estar um pouco ansioso ou ansiosa de saber: afinal, que modelo Donut é esse?

A minha ideia é explicar um pouquinho quais são as bases desse modelo e principalmente como ele já foi implementado e vem sendo trabalhado, pra que a gente não fique apenas em uma conversa teórica ou muito pautado no pensamento e consiga falar sobre a prática desse modelo.

Então a minha ideia é te explicar um pouquinho de que tipo de modelo econômico pode levar a gente adiante. Já que sabemos que o que temos hoje já deu por aqui, né?

(vinheta)

Bom. O modelo Donut foi consolidado e organizado num livro que chama "Economia Donut: uma alternativa ao crescimento a qualquer custo" da Kate Raworth. Basicamente, o mode Donut busca fazer uma inversão de modelo mental: ao invés de buscarmos sempre pelo aumento do PIB, ou no cenário empresarial poderíamos dizer que ao invés de buscarmos aumentar sempre o nosso EBTIDA ou a margem de lucro liquida, na verdade a gente buscar o modelo Donut realmente. Que busca trazer uma economia mais integrada, ou seja, os inputs econômicos geram outputs que conseguem movimentar o mercado e o Estado, agregar à nossa sociedade e principalmente impactar positivamente o nosso sistema Terra.

Esse modelo também busca transformar a forma de pensamento pra que a não seja considerado o ser humano econômico e racional, mas que a nossa espécie seja vista como social e adaptável, que pode impactar positivamente o nosso ecossistema.

O modelo Donut também busca inverter a lógica da Oferta e Demanda. No que normalmente a gente entende que essa lógica equilibra os nossos modelos de consumo mecanicamente, mas levar a gente para um modelo de complexidade dinâmica: em que tudo o que geramos pode impactar positivamente o nosso sistema.

Isso levaria a gente a não apenas crescer a qualquer custo, mas a agente ter um modelo distributivo por concepção, o que pode nos levar a crescer economicamente ou sustentar o nosso modelo econômico pautado numa regeneração do sistema Terra e das formas como a gente dialoga no dia a dia.

Ou seja, dessa forma, não precisamos crescer a qualquer custo, mas podemos manter um sistema Terra sudável no qual todo mundo pode se beneficiar, diminuindo os modelos desiguais que temos, gerando uma forma mais sustentável de consolidarmos o nosso futuro.

O donut, basicamente, busca reduzir os excessos que temos. Por exemplo: excesso em poluição do ar, destruição da camada de ozônio, mudança climática, acidificação de oceanos, poluição química do ecossistema, etc.

Ao mesmo tempo, ficamos em deficit no alicerce social. Ou seja, grande parte das pessoas não tem água, energia, alimento, saúde, educação, renda, paz e justiça, voz política, igualdade social e de gênero, habitação e redes que possam sustentar nossa existência.

Basicamente o modelo Donut mostra para a gente o seguinte: existe um teto ecológico e um alicerce social que devemos respeitar. E nesse espaço, nós formamos o donut:

Nós devemos sustentar o mínimo desse alicerce social e devemos ter um teto ecológico, ou seja, criamos aí a camada do Donut, que é um espaço seguro e justo para a sociedade de regenerar e se distribuir em termos de receita, renda e sustentabilidade.

A minha ideia é te mostrar um pouquinho como isso acontece, de fato, na cidade de Amsterdã.

No dia 8 de abril de 2020, a Kate Raworth escreveu em seu próprio blog introduzindo o modelo Donut que Amsterdã implementou como cidade. Foi nesse próprio dia, em plena pandemia, que a Kate o plano de Amsterdã oficializaram que esse seria o modelo que eles buscariam daqui pra frente.

Então, de 2012 quando o livro foi publicado para 2020, a Kate Raworth passou por uma série de experimentações em cidades, sistemas, empresas, até chegar no ano atual e, depois de um ano de trabalho com um time multidisciplinar e muito diverso com participação de empresas, do setor público, do terceiro setor e da sociedade civil, eles conseguiram consolidar um modelo novo e holístico que conseguiria tirar o modelo Donut da teoria para a prática.

A Kate começou um processo de assimilação da biomimética com uma pessoa incrível chamada Janine Benyus, em que basicamente elas criaram a coalisão do modelo Donut de Amsterdã e, assim, começaram a consolidar formas holísticas de consolidar o modelo em Amsterdã.

A pergunta principal que esse time começou a se fazer foi: como é que a gente poderia entregar uma cidade próspera para seus cidadãos, ecossistema, que respeitasse a saúde das pessoas e do Planeta Terra como um todo.

Essa pergunta começou a aspirar esse time a pensar em 4 principais frames:

- O local

- O Global

- O Social

- O Ecológico

A partir dessa primeira pergunta, podemos fazer uma analogia como processo do Design Thinking, essas pessoas empatizaram com esse desafio e chegaram em um novo ponto de vista, que na verdade são 4 novas perguntas.

 

- Sob uma perspectiva local e social, a pergunta virou o seguinte: como que a cidade de Amsterdã poderia ser próspera para suas pessoas?

- Sob uma perspectiva local e ecológica: como a cidade poderia ser próspera em relação ao habitat natural?

- Sob uma perspectiva ecológica e global: como que a cidade poderia respeitar a saúde do sistema Terra?

- Sob uma perspectiva social e global: o que significaria Amsterdã respeitando o bem estar social das pessoas do mundo?

Então, sob essas 4 lentes, esse time começou um processo de ideação respondendo essas perguntas.

Assim, esses 4 times chegaram em um modelo de política pública junto a um modelo empresarial e de pressão social que poderiam responder essas perguntas

Aqui eu deixo o link em que a Kate explica muito detalhadamente que tipo de políticas públicas e modelos empresariais e sociais sustentariam esse plano de transformar Amsterdã em um modelo econômico Donut.

Foram tangibilizados 4 modelos muito complexos e a minha ideia não é necessariamente descrevê-los aqui, mas o ponto principal é: esse time multidisciplinar, essa colisão, conseguiu chegar em um modelo prático, com pontos de atenção e um plano muito bem delineado de como seria a cidade de Amsterdã no modelo Donut.

O principal ponto que queremos trazer aqui a explorar Amsterdã como uma referência de entrada no modelo Donut são alguns:

- O primeiro é mostrar que é possível a gente sair de um frame de busca de lucro a qualquer custo que, inclusive, não lá tão rico e não respeita alguns limites importantes; e mostrar que existe uma alternativa possível já implementada no ano de 2020;

- Outro ponto que eu quero trazer aqui é que, ao explorar o modelo Donut na cidade de Amsterdã  como um case, a gente se inspirar em como a gente pode colocar esse modelo no nosso dia a dia, nas nossas empresas, nas nossas casas, nos nossos governos?

Eu entendo que essas não é uma tarefa fácil. Vamos combinar? A gente tá começando a dar a profundidade necessária nos últimos anos. Então, é essencial que a gente se aprofunde nesses modelos e busque adequa-los aos nosso cenários.

Inclusive, é isso o que venho fazendo na Ensaio nos últimos meses. Buscando aplicar esse modelo em nosso ecossistema, por mais que pequeno e muito artesanal, com alto impacto necessário pra que a gente comece a nadar junto nesse oceano como Amsterdã e outras iniciativas que estão sendo feitas.

Para fechar esse audiocase, eu queria deixar essa provocação: dá uma olhada no artigo que deixamos aqui e também dá uma olhada dá uma olhada no livro.

Veja se faz sentido entrar nesse movimento junto com a gente!

Tenho certeza que esse modelo deve e será muito amadurecido ao passar do tempo que a gente implementa em conjunto com todas as outras iniciativas locais e globais que já vem sendo trabalhadas há muito tempo.

Eu espero que esse audiocase possa servir de inspiração para que a gente abrace e comece a aplicar, na prática, tudo isso que a gente fala por aí que é muito bonito na teoria. Até porque, já não está dando mais tempo para a gente ir na contramão desse movimento que precisamos entrar.

Eu costumo falar que os próximos 30 anos, serão os anos em que ou vamos deixar o caminho mais fácil ou mais difícil par as próximas gerações que estão por vir aplicarem tudo isso o que a gente vem falando.

Afinal, não tem mais volta.

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