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Provocações

APATIA

Nalu Tomba

14 de maio de 2021

É muito provável que você já tenha esbarrado com o meme abaixo em uma de suas visitas às redes sociais.

O passado, lá dos anos 70, esperava muito dos anos 2000 - bem como os anos 20 esperavam das décadas seguintes, e por aí vai. 

E, de fato, algumas das tecnologias que surgiram nos últimos 50 anos geraram um impacto que ameniza outros efeitos não tão bons que vieram junto. Portanto, e, ironicamente, contudo, o nosso saldo ainda é negativo.

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Estamos constantemente consumindo informações sobre cenários promissores da robótica e high tech - e não necessariamente sobre carros voadores, afinal, não basta apenas ser viável, precisa ser lucrativo.

Aliás, estamos constantemente consumindo informações. O tempo todo. Mesmo quando não queremos.

 

E esse fluxo de dados, acontecimentos, informações, combinado a uma rotina que nos deixa de mãos atadas quando o objetivo é desafiar o status quo, nos torna apáticos.

 

É assim mesmo.

 

Mas isso acontece desde que o mundo é mundo.

A minha ideia aqui não é tentar despertar em você o sentimento de salvador ou salvadora do planeta, essa é uma questão de ego.

Esse momento cada vez mais robótico, que, inclusive, abordamos na última edição do Passeio, sobre os atendimentos feitos por robôs, pode fazer brilhar os olhos dos entusiastas da evolução tecnológica, mas é fundamental questionarmos além: essa evolução nunca vai ter parada?

 

Para Max Tegmark, cosmologista e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), essa preocupação deve ser levada muito a sério, até porque, entre os problemas imediatos que essa aceleração tecnológica pode trazer, o primeiro que ele elenca é justamente a desigualdade social.

Se em 2020 não tivemos carros voadores, em 2021…

… Ainda vivemos em um Brasil que, ao mesmo tempo que voltou ao Mapa da Fome, colocou 10 novos nomes no ranking dos Bilionários do Mundo de 2021.

A conta não fecha ou a conta fecha perfeitamente?

Desafiar um sistema com séculos de engessamento em que o maior e único intuito é enriquecer os mais ricos e empobrecer os mais pobres não é tarefa fácil, muito menos rápida. No entanto, é preciso aceitar, o quanto antes, que desse jeito não dá certo - ou, para não ser tão pragmática, desse jeito, continuaremos morrendo de formas que já não deveriam mais ser aceitáveis, como fome, frio, bala perdida, vírus que já possui vacina.

Quando deixa-se de olhar para as necessidades básicas de um ser humano, passa-se a vê-lo como qualquer coisa, menos um ser humano. E “qualquer coisa” não é portadora de sentimentos, ou ao menos sensações dignas de serem vistas como direito básico. E não é que “o buraco é mais embaixo”; a verdade é que o buraco está aumentando, se tornando cada vez mais profundo e, assustadoramente, sendo preenchido...Por pessoas.

A matéria acima é de Janeiro de 2021. Ela mostra a vida de pessoas que moram em buracos dos viadutos e pontes de São Paulo, a cidade mais rica do Brasil. Se já (ou ainda) consideramos as ruas e viadutos como lugares indevidos para chamarmos de “moradia”, em que posição ficam os desgastes estruturais de construções viárias?

Ué, mas vai querer salvar o planeta?

Não é por aí. Em uma conversa com o astrofísico e professor da USP, Roberto da Costa, aprendi que um dos nossos maiores erros, como espécie, é esquecer que a Terra é uma bola de elementos da tabela periódica com 4,5 bilhões de anos e mais alguns números enormes em peso e diâmetro. O planeta não precisa ser salvo. Mas a humanidade, sim. E se nós não nos preocuparmos com a sobrevida da humanidade, nada mais vai. 

Apatia

No entanto, perdemos a habilidade de nos preocuparmos. Não é de hoje, mas principalmente nos últimos anos, vivemos em um estado constante de apatia, de anestesia. Por duas razões, em suma: 1. como se levássemos muitos socos em um mesmo lugar do corpo, a área já se anestesia, não doi mais, mas ainda causa prejuízos; 2. você simplesmente não leva socos, e, pelo contrário, ganha ferramentas de defesa para passar impune a tudo isso.

Todo o nosso acesso a diferentes informações e aos últimos avanços tecnológicos não pode ser sinônimo de afastamento do senso de humanidade.

Os avanços tecnológicos são frutos do básico e ao básico eles devem responder. Inovar em 2021 não é olhar apenas para carros voadores, mas para estômagos vazios, cabeças sem teto, alvos e vulnerabilidade. Enquanto isso não for palavra de ordem, As Meninas ainda serão atemporais: o de cima sobe e o de baixo desce - cada vez mais.

 

 

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