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Aprofundamento

VIRANDO

O NAVIO

Jéssica Piovan

16 de setembro de 2021

Esses dias eu estava assistindo à série documental recentemente lançada pela Netflix do 11 de setembro, fatídico dia em que os Estados Unidos sofreu atentados terroristas coordenados pela organização fundamentalista islâmica al-Qaeda. Me lembro exatamente de onde eu estava quando recebi a notícia: eu tinha 10 anos, estava lendo um poema de Olavo Bilac para os meus colegas de classe. A coordenadora da escola entrou, me interrompeu e disse que naquele momento um ataque terrorista estava acontecendo contra os Estados Unidos.

 

Eu não sabia o que era ataque terrorista e quando falavam sobre Estados Unidos eu pensava nas orelhas do Mickey, mas tudo naquele momento virou de cabeça para baixo. Minhas professoras interromperam meu verso onde dizia que "a Via-Láctea era um pálio aberto" e nos explicaram o que era uma guerra, uma organização fundamentalista e nos colocaram para fazer orações independentemente da crença religiosa que tínhamos.

 

Veja bem, eu tinha 10 anos e não fazia ideia de que ali se iniciaria uma Guerra contra o Terror. Quando a minha professora começou a explicar o que era uma guerra, fiquei chocada. Um coleguinha perguntou: "Mas eles não pensam que eles podem matar pessoas para conquistar as coisas?" e uma amiga minha logo relacionou "São pessoas que pensam para conquistar e, não importa o que aconteça, eles vão matar se necessário".

 

Aquilo ficou tão marcado em mim que alguns anos mais tarde quando estudamos o processo colonizador do Brasil eu fiquei revoltada… e sim, eu sou até hoje.

 

Pois bem… 20 anos depois assistindo a essa série eu me liguei no óbvio: todo o pensamento estratégico que desenvolvemos dentro das empresas e corporações são inspirados na guerra. Para quem já leu o livro Good Strategy, Bad Strategy sabe disso. Esse lampejo caiu como uma luva pra mim que vivo falando sobre pensamento estratégico orientado a dados e confesso que aquilo foi um misto de "deus me livre com quem me dera" e aí entrei em um vórtice sem fim e comemorei: ainda bem que essa semana a seção de Aprofundamento na Passeio é minha.

 

Então segue o fio:

 

Você já deve ter ouvido falar, em alguma das mil reuniões que possui de planejamento estratégico, de que a sua empresa precisa de uma iniciativa que faça vocês corrigirem a rota, mudarem o rumo ou virar o leme do navio. Tudo isso é vício de linguagem de guerra que vem desde antes de o colonizador se arriscar no mar para chegar na América e dizimar a população nativa. E lá já se falava em coordenadas geográficas.

Coordenadas são um sistema que provém das teorias dos antigos babilônios e fenícios. No século 3 a. C, o astrônomo grego Eratóstenes propôs o primeiro sistema de latitude e longitude para um mapa do mundo. Este pensamento foi expandido pelo pensador e geógrafo grego Ptolomeu, que imaginou que um círculo completo seria dividido em 360° (eu quero homenagear todos os professores e, em especial, a professora Kátia Viana que lecionou Geografia na minha sétima série e soube ensinar como ninguém o que são coordenadas geográficas).

Pois bem… O que são as coordenadas geográficas se não dados? Nós usamos dados para nos orientar desde os primórdios. Na Segunda Guerra Mundial, os estatísticos americanos analisavam todos os aviões que voltavam das batalhas e destacavam as áreas com mais marcas de balas.

 

 

O objetivo era identificar onde a estrutura dos aviões deveria ser reforçada da maneira mais eficiente: não muito a ponto de deixar o avião muito pesado, difícil de manobrar e consumindo mais combustível, e nem tão pouco a ponto de deixá-lo vulnerável.

 

Então, sim. Nós herdamos muito do pensamento estratégico da guerra e o cenário que vivemos hoje nos faz cada vez mais tomar decisões de mudança de rota nos orientando a dados.

 

Quando falamos em dados, as pessoas logo pensam: preciso de alguém racional, lógico, com pensamento matemático e que seja incrível ao olhar um dado e tirar informações.

 

Não. Você está errado. Para tomar decisões baseadas em dados você precisa de um pensamento analítico e de um pensamento intuitivo. Se você só analisa, você olha dados com frieza, mas se você une a análise com a intuição, aí sim você possui informações.

 

E o ponto principal desse processo é aprender a falar com os dados, e sim… falar de verdade com perguntas, se orientar e extrair o máximo de informações possíveis de métricas, KPIs e indicadores. Não, essa não é uma tarefa fácil. A união de um pensamento analítico com intuitivo é core nesse sistema.

 

O melhor framework que encontrei para isso é esse abaixo, criado pelo meu professor de um curso que fiz de Data for Business na Tera, chamado Eduardo Santos:

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  1. No topo do framework você deve colocar qual é o seu objetivo ao analisar determinado conjunto de dados. Um exemplo: Identificar o problema raiz na qualidade das entregas de determinado produto/projeto.

  2. Após isso começar a fazer perguntas para esses dados: Por que tivemos uma queda considerável na nota de satisfação dos clientes?

  3. Já no terceiro quadrante, você vai identificar quais são as métricas e KPIs que você está analisando e qual é o intervalo que você utiliza como recorte.

  4. No quarto ponto, você pode determinar qual foi a fonte de dado: de onde ele veio? Nesse intervalo o que aconteceu com determinado dado? Ele foi cruzado com outro dado no meio do caminho?

  5. E é claro começar a prospectar o futuro, criando regras e definições de sucesso para que possamos, de fato, melhorar as métricas para melhorar nossas entregas determinado a cada cenário que desejamos analisar.

Esse simples framework te leva a analisar dados de forma solta, leve e intuitiva. Ele te permite transitar entre o polo duro dos dados até a fluidez do polo intuitivo.

 

 

Ele é excelente para analisar dados com um time sobre determinado produto, processo ou até mesmo projeto, nos levando a um caminho cheio de possibilidades, que é o que dados devem fazer conosco.

 

 

Já que a guerra nos ensinou a olhar para eles, que nós possamos fazer isso de forma fluida, sem peso, se valendo dos dois lados do nosso cérebro para que mesmo em meio de tanta guerra a gente encontre paz.

Temos uma provocação a fazer no próximo Pico.

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