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Provocações

SOB(RE)

PRESSÕES

Daniele Martins e Nalu Tomba

27 de novembro de 2021

Image by National Cancer Institute

Você abre o instagram e uma blogueira padrão aparece discursando sobre aceitação e amor próprio. É um daqueles textos toxicamente positivos e que, muito provavelmente, ninguém leu, mas sacou algumas palavras do combo ego + engajamento da audiência: empatia, gratidão, espelho, “é difícil pra mim”, alguns quilinhos a mais,  amor próprio, auto aceitação, é sobre isso e tá tudo bem. Seguido de algumas dezenas de comentários no mais novo dialeto da humanidade: os emojis.

 

Na semana seguinte, rolando o feed do aplicativo, para sua surpresa (ou nem tanto), a mesma blogueira se expõe em um doloroso pós cirúrgico de próteses de silicone - “que era um sonho desde sempre.”

 

Seria muito preguiçoso basear-se nessa contradição - real e acurada. É que há mais do que só uma contradição. Há pressão fantasiada de “sonhos desde sempre”.

 

Acredito que, antes de começar, precisamos colocar alguns pingos nos is. Não há, sob hipótese alguma, a chance de uma mulher ter nascido com uma vontade insaciável de alterar o formato dos seios.

 

Mas ela viu, nas revistas, as referências de mulheres poderosas e seus peitos cirurgicamente simétricos.

 

Mas ela assistiu, nas novelas e filmes, as atrizes mais cobiçadas com decotes que mais se assemelhavam à de suas bonecas do que ao seu próprio.

 

Mas ela cresceu ouvindo que “dá pra melhorar, viu”, “dá pra ficar maior!”, “assim vai ficar difícil de encontrar um homem que te queira”. 

Então, ela vive um constante incômodo. Uma constante sensação de estar errada, de ser proibida de viver desse jeito - ou vai virar chacota pelo resto da vida. “Assim que eu colocar silicone, eu vou ser feliz!”

 

Logo, a vontade de mudar é de quem? 

 

Nunca foi dela.

Os tão esperados 18 anos chegam e a consulta com o cirurgião plástico já está marcada. Alguns exames ali, outros aqui, alguns riscos ali, outros aqui, alguns milhares de reais e cirurgia agendada.

 

Bisturi e anestesia geral. Antibióticos e analgésicos intravenosos. Pontos, cola, faixas, sangue. Cadeira de rodas e ajuda para comer, tomar banho, se vestir e qualquer outro movimento que, antes, conseguia fazer perfeitamente sozinha - e faço questão de não mencionar dor. Dor é subjetiva, antiga e, neste caso, se molda em vários jeitos diferentes.

 

Lembro de acompanhar uma amiga neste pós operatório e vê-la chorar de dor quando tentava rir com a gente. Também tinha dificuldades em respirar. Era chocante e desesperador.

Mas depois passa, né? Aí a gente vê que vale a pena!

 

Nunca vale, nunca vai valer. Porque nunca foi sobre o tamanho e formato dos nossos seios. Sempre foi pelo lugar inalcançável de “corpo perfeito”.

“A qualidade chamada ‘beleza’ existe de forma objetiva e universal. As mulheres devem querer encarná-la, e os homens devem querer possuir mulheres que a encarnem. [...] Nada disso é verdade. A ‘beleza’ é um sistema monetário semelhante ao padrão-ouro. Como qualquer sistema, ele é determinado pela política e, a era moderna no mundo ocidental, consiste no último e melhor conjunto de crenças a manter intacto o domínio masculino.” (O Mito da Beleza, Naomi Wolf, 1991).

 

Essa auto aceitação vendida, principalmente, nas redes sociais não é sobre a aparência. É sobre comportamento. E, por isso, vai ser sempre inalcançável - a beleza se transfigura junto com o cenário político, econômico e social do planeta.

E precisamos de mais pessoas questionando os pesadelos que, um dia, normalizamos. Essa página é um bom exemplo a ser seguido (de todas as maneiras!)

Quanto a outras intervenções estéticas problemáticas, como harmonização facial, cirurgia LAD e tantos outros procedimentos invasivos e desnecessários, deixo para outra provocação.

 

É preciso lembrar que inovações surgem quando paramos de considerar o “mas sempre foi assim” como uma boa resposta.


 

Afinal, nem sempre foi assim.

 

O método cascata também foi inovador em sua época, assim como a máquina de tear, o fordismo, o martelo, a calculadora, dentre tantos outros métodos e ferramentas que surgiram nas revoluções industriais. E, bem, dizem por aí que estamos vivendo a 4ª revolução industrial, não é mesmo?

 

E o que novas formas de operar trazem consigo? (não tão) Novas necessidades e comportamentos humanos, para os quais precisamos olhar. Economia, faturamento, inovação e a própria operação não existem sem - pasmem - pessoas.

 

Com o boom das startups, chegou também o grande volume de founders, heads e chiefs of something no linkedin. Títulos que, muitas vezes, chegam carregados de textos com aprendizados rasos e pouco acionáveis para quem lê, histórias de superação e grandes feitos para a humanidade, mas que, na realidade, só impactam uma minúscula parcela da população brasileira (quando impacta).

Minha intenção não é ofender ou generalizar ninguém com o parágrafo acima, apenas provocar, como o nome da sessão dessa estimada revista nos pede, e refletir: por quê parece tão legal ter um desses títulos no linkedin? Quando passamos a almejar por isso sem nos conscientizar de todas as responsabilidades, problemáticas e ações diárias que vêm de brinde com ele? Penso que é como o casamento: muito querem a paixão, o pedido, a festa, e poucos se lembram de que o casamento pode (e deveria, se me permitem uma opinião) ser a construção de uma relação sólida, a convivência respeitosa e até pouco divertida em alguns dias, o apoio emocional e a partilha de uma vida, com todas as nuances boas e não tão boas que esta carrega. 

Como bem colocado no início desse texto, ninguém nasce com a necessidade de realizar uma operação para modificar o próprio corpo, e nem de casar e, menos ainda, de ter “Head” no título do linkedin. Quando crianças, superamos desafios e evoluímos todos os dias: aprendemos a andar, a falar, a comer, a brincar… e vemos o brilho, e até o choro, nos olhos dos nossos pais enquanto passamos pelo processo de aprendizagem. A graça não é o aplauso, é a partilha. É ver pessoas que amamos ao nosso lado nos ajudando a levantar quando caímos na nossa primeira corrida (porque paulistano já nasce com pressa, ba dum tsss), nos dando colo quando a queda acaba em choro, e vibrando quando conseguimos completar o percurso.

As pessoas que estão realmente ao seu lado não estão com pressa de ver um “Chief of something” no seu linkedin, mas estão ao seu lado durante o processo, vibrando a cada vitória e novo aprendizado e, mais importante que isso, aprendendo junto com você, para que você possa construir um aprendizado sólido e compartilhá-lo com mais pessoas, na intenção de ajudá-las a aprender a caminhar no percurso que você já percorreu. 

 

Sempre fez parte do trabalho do ego engolir conexões reais. Talvez, tudo o que a gente precise é relembrar a nossa essência, aquela de quando estávamos aprendendo a andar, e questionar “essa essência realmente clama por um título ou uma intervenção estética?”. Talvez a necessidade venha de pressões do meio, e isso interfira na sua criatividade natural e, consequentemente, na sua habilidade de inovar.

 

Minha sugestão? Tratemos a vida como um lego: uma peça de cada vez, até que se torne o edifício que queremos ver (que não precisa ser um arranha-céu), e não nos esqueçamos de também comemorá-lo com quem nos ajudou a construir e nos deu colo quando pisamos em uma das peças.


 

E para nos conectar com a nossa criança interior, vamos passear?

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