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Aprofundamento

COMO CHEGAMOS

ATÉ AQUI?

Leonardo Chiodi

14 de novembro de 2020

Yuval Harari diz que “vivemos a era da perplexidade”. 

 

Ao mesmo tempo que as pessoas perdem a fé na política global, a fusão entre biotecnologia e tecnologia da informação nos coloca frente a frente com as maiores mudanças com que o ser humano já passou. Mas existem muitos pontos a serem ajustados.

PROGRESSO?

 

Em junho de 2019, 2 bilhões de toneladas de gelo derreteram na Groenlândia, o maior degelo da história. Enquanto isso, cerca de 800 milhões de pessoas passam fome atualmente no planeta. Todo esse cenário tem relação com um modelo econômico que não se mostra eficaz na redução da desigualdade, muito menos engloba a preservação da natureza como deveria. O prognóstico para isso caminha para um só: nessa toada, a Terra não vai mais nos querer por aqui.

 

Temos potencial ábil para acabar com a fome, mas isso não acontece. Em nome de que, mesmo?

 

Tudo isso ocorre em nome de uma ideia de progresso construída ao longo da história. Um conceito que não faz mais sentido, herança de uma era industrial que que levou os pulmões da Terra (e de muitas pessoas) além do limite e que nos trouxe a um modo de pensamento em que até o ócio deveria ser "produtivo".

 

Progresso não é apenas "crescer". Quando crescemos na velocidade que crescemos, ocupamos espaço de outros elementos importantíssimos para o futuro da natureza e, consequentemente da humanidade.

 

Em seu livro "Ideias para Adiar o Fim do Mundo", Ailton Krenak diz que perdemos a noção de que fazemos parte da Natureza. Costumamos enxergar essa relação do ser humano e o meio ambiente com uma distância que simplesmente não existe. Isso diz muito sobre como chegamos a esse ponto.

 

Não precisamos nos distanciar da natureza para prosperar, pelo contrário. Temos um potencial ambiental muito forte, que gera riquezas, principalmente no Brasil. 

 

Vivemos um momento que cada um fazer sua parte não é mais o suficiente. Precisamos de uma mobilização muito forte e transformações econômicas e sociais para que o futuro simplesmente aconteça.

 

Modelos políticos nacionalistas e isolados não tem mais espaço em um mundo que precisa de cooperação na tomada de decisões que vão ditar o rumo do planeta. Por razões como essas, vemos uma crescente de visões políticas "nostálgicas". Pessoas se infiltrando no debate público recorrendo seus planos de retorno a um passado pintado de ouro e um futuro baseado em conspirações que mais parecem um roteiro adaptado de um livro para um filme mal redigido. Ideias reconfortantes que buscam explicar com a maior simplicidade do mundo todo esse contexto.

 

Muitas empresas ditas modernas ainda se organizam como na época industrial, de forma totalmente hierarquizada, fechada, incentivando a competitividade entre seus próprios membros e colaboradores, sem qualquer movimento real a favor da criatividade, reduzindo sua liberdade e potencial sob a falsa promessa de segurança, estabilidade e independência financeira. 

 

Mas, na verdade, o que mais se conecta com conceitos de liberdade, autonomia e prosperidade é a criatividade. Passamos por um momento febril, onde o tempo não faz mais seu papel de ordenador, mas sim de obstáculo.

 

Modelos opressores que são a base de uma economia que está capengando há um bom tempo, mas que ainda é suportada por alicerces que se recusam a ceder e que fazem com que os próprios impactados se submetam por vontade própria, anestesiados.

 

Depois da anestesia, vem o cansaço.

 

Byung-Chul Han denomina a organização atual como "Sociedade do Cansaço", que padece em consonância com esse modelo de culto ao desempenho que refletimos acima. 

 

Para o filósofo sul coreano, a autoexploração é um dos principais sintomas desse modelo. Vivemos angustiados por não darmos conta de fazer tudo o que poderia ou deveria ser feito e, com isso, dedos são apontados - vindos de todas as direções - afirmando que não somos vencedores, merecedores de qualquer ganho positivo. 

 

É a alienação de si mesmo. Além de matarmos o planeta, nos matamos e desenvolvemos patologias físicas e psicológicas: síndrome de burnout, anorexias e inúmeros tipos de "novas" compulsões. 

 

E o que sobra disso tudo?

 

Gostaria de deixar a reflexão: devemos crescer ou prosperar?

 

No próximo Pico, o Pedro vai te contar sobre algumas iniciativas e novos modelos de economia que já estão sendo aplicados e gerando resultados positivos pelo mundo. Vale a pena conferir!

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