O paradoxo da conexão

Estamos cansados de saber que vivemos em um mundo saturado de informações nem sempre relevantes.



Na mesma timeline em que vemos conteúdos relevantes para a vida ou trabalho, vemos fotos de pessoas importantes, pessoas não tão importantes, receitas, roupas, anúncios, notícias. Vamos do grande acontecimento político-social do momento ao café da manhã do ex-participante de um Reality Show qualquer em uma "passada de dedo"


Pequenas doses de referências que acabam por se tornarem distrações que, se nos deixarmos levar, ficamos presos em uma bolha de abstração e devaneio para deixar de lado a realidade em que estamos inseridos fisicamente: o momento.


Até certo ponto, passávamos boa parte da vida procurando alternativas e saídas para a distração - viagens, lazer, hobbies - e agora é necessário voltar a aprender como fazer para estar mais atuante no presente.


Estar presente.


Apesar de o processo do diálogo parecer um evento tão simples, nós estamos perdendo a prática do formato. Muito pelo fato de a nossa atenção ser desviada a todo momento, consequentemente, acabamos por não assimilar ou absorver o que foi expressado pelo agente interlocutor.


A escuta ativa ganha espaço em tempos excesso de dados, tanto no campo pessoal como no profissional.


A falta de escuta ativa está diretamente ligada à falta de engajamento na comunicação, ao desencontro de informações, repetições desnecessárias, falta de alinhamento de expectativas, senso de valor reduzido, e, claro, à ansiedade.


Pense nos obstáculos ao seu redor para que você comece a escutar ativamente.


Nossos aparelhos celulares devem realmente ser extensões do nosso corpo e mente?


Num mundo que se diz tão "conectado", será que não estamos deixando alguns elos importantes de lado?


Nosso ego é importante? Claro. Mas será que, muitas vezes, não devemos deixá-lo de lado para nos colocarmos no lugar do outro?


Enquanto estamos escutando alguém conversando com a gente, muitas questões surgem à nossa mente: experiências particulares, impressões, preconceitos, vontade de pegar o celular... O desencontro de informações se inicia aí.


Quando não temos plena atenção ao interlocutor, geramos ansiedade em nós mesmos, seja pensando no que vamos fazer mais tarde ou na promoção que não aproveitamos na semana passada, além de dar a impressão que o outro não é importante ou interessante o suficiente para que sua história seja compartilhada.


Um exemplo: um médico cirurgião que, certo dia, recebe a demanda de operar o ombro de um paciente, mas que, por razões externas à situação, não conseguiu manter a atenção plena no diálogo que antecedeu a cirurgia e acabou operando o joelho do indivíduo (sim, isso acontece com uma certa frequência).


Será que - no trabalho ou em nossa vida pessoal - não estamos "operando outra parte do corpo de nossos pacientes"?


A prática da escuta ativa tenta romper com as desconexões do mundo conectado e desenvolver habilidades para manter a estabilidade de diálogos ativos, proveitosos e com presença mútua.


A escuta ativa, então, é capaz de quebrar esse ciclo de poucas interpretações, com o desenvolvimento de habilidades de comunicação que garantem um diálogo linear e eficiente; além de ser praticável tanto na vida profissional como na pessoal.


Seus benefícios podem parecer óbvios, mas, além do estreitamento de laços e relações interpessoais, conseguimos destacar pontos que transcendem os campos pessoais e profissionais, como o progresso da empatia - palavra cada vez mais presente em discussões de todos os tipos -, da confiança e do senso de segurança, além de ajudar a diminuir divergências e conflitos, muito pelo estímulo dado em percebermos a história de cada indivíduo.


Engajamento que acende a absorção de informações realmente relevantes.


A escuta ativa deve ser praticada e desenvolvida. Separei algumas dicas para você treinar e "estar presente":


Não tente ser multitarefa: nós não fomos feitos para isso e, ao contrário do que muitos pensam, essa prática não nos torna mais produtivos, pois, no fim, o que realmente acontece é que deixamos de lado detalhes importantes. Esteja presente, faça uma coisa de cada vez. Se você estiver lavando a louça, lave a louça. Se você estiver conversando com alguém, converse. Se precisar responder outra pessoa no celular, peça licença a faça isso.


Escolha - engajar ou drenar: é muito comum nos encontrarmos em situações de grupo, como em reuniões por exemplo, em que existem 6 pessoas realmente engajadas, que agregam ao contexto, mas há uma pessoa sem a menor atenção à situação ou até participando negativamente que acaba por drenar a energia do coletivo.


Tenha mentalidade de aprendiz: mesmo que você seja um especialista no que está fazendo, não perca sua mentalidade de aprendiz. Pare de achar que sabe de tudo, aliás, quanto mais souber, mais deve se incentivar a aprender e compreender outras situações. Cuidado para não julgar com base em suas próprias crenças.


Avalie o que o interlocutor diz: ouça com atenção. Uma dica - repita o que a outra pessoa, com quem você está conversando, diz. Isso vai te ajudar a refletir sobre o assunto e ter certeza que entendeu, além de demonstrar sintonia e atenção ao interlocutor.


Deixe as imagens de lado: enquanto a outra pessoa fala, tente não ficar muito "na sua cabeça", preste atenção de verdade para depois refletir e acrescentar. Esqueça os julgamentos, não ache que você sabe e já passou por tudo.


Escute: importe-se com as pessoas e com o que está fazendo no momento. Não seja seletivo ao ouvir, ouça para entender e não para retrucar,


Ouça mesmo que seja "apenas" para curar. O fato de alguém saber que está sendo ouvido é muito importante para que essa pessoa escute a si mesma e não à sua cabeça. A fala ajuda a elaborar nossos pensamentos e dar sentido às atitudes.


O simples fato de escutar, estar presente e colocar uma postura empática, sem mesmo precisar falar nada, já é de grande valia mesmo que você não tenha as "respostas certas" nem as perguntas adequadas para o momento. Mostre que você se importa, faça com que o interlocutor se sinta importante.


Já não é mais segredo que escutar o outro é essencial. Mas para que isso aconteça, antes de tudo, devemos nos escutar. Meditação, mindfulness, exercícios físicos, terapia, são algumas práticas que nos ajudam na reflexão e autoconhecimento.


Escutar, muitas vezes, tem mais a ver com nós mesmos do que com o outro.


Escute. Se escute.

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